09 de julho de 2026
Bairros

Sem transmissão oral, tradição se perde

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 3 min

Está cada dia mais difícil localizar benzedeiras em cidades do porte de Bauru, apesar de quase todo bairro da cidade contar com algumas destas figuras. A queda no número de benzedeiras é admitida pelas próprias mulheres que desempenham esta função porque também está cada dia mais difícil encontrar mulheres jovens interessadas em seguir a tradição.

Sem herdeiras interessadas neste patrimônio, a principal forma de continuidade da tradição - a transmissão oral - fica inviabilizada. A pesquisadora em religiões populares Dalva Aleixo reconhece que muitas pessoas que talvez tivessem talento para participar da arte adivinhatória de benzer estão “migrando” para outras áreas.

“Muitas vão para a Igreja Messiânica ministrar o johrei (prática de imposição de mãos), outras vão para a Seicho-No-Ie, outras para o budismo”, atesta Aleixo. Ela diz que até mesmo alguns evangélicos dizem ter o dom da revelação. “Eles põem a mão na Bíblia e ‘te benzem’, mas usam outro nome para isso. Na essência é a mesma coisa”, explica.

Para a pesquisadora, a situação não seria tão grave quando esta migração acontece para religiões que cultuam os ancestrais. “Nossa preocupação enquanto pesquisador é quando esse talento se perde”, completa.

Ela acredita que os elementos da cultura popular nunca acabam, mas se transformam. “Mesmo sem transmissão oral, as pessoas talvez migrem para outras possibilidades de expressão religiosa. Afinal, o transe mediúnico acontece na igreja carismática e nas neopentecostais. Mas a não-transmissão me preocupa”, revela.

Aleixo, que também é professora da Unesp de Bauru, lembra que a perda de patrimônio cultural por falta de transmissão acontece até mesmo em comunidades mais “fechadas”, como as indígenas.

“A prática da pajelança se mantém na umbanda, mas não existe mais nas aldeias. Mulheres que vieram da cultura indígena atuam na cidade, incorporando para benzer, e acabam preservando uma cultura que na aldeia já não existe mais. Lá, os pajés estão sendo substituídos pelos pastores”, atesta.

A pesquisadora, que em 1989 realizou o trabalho denominado “As artes adivinhatórias em Bauru”, lembra que as benzedeiras revelam uma certa tristeza por não terem para quem transmitir sua tradição. “Em 1989 eu entrevistei 12 benzedeiras e, destas, apenas uma ou duas estão vivas”, diz. Para Aleixo, várias potenciais herdeiras desta tradição sofrem pressões muito fortes de suas famílias para se tornarem evangélicas.

Herança

Nem sempre a falta de interesse dos jovens pela tradição das benzedeiras é a causa da falta de transmissão oral da prática. A benzedeira Francisca Maria de Jesus, que atende crianças no Parque São Geraldo, região noroeste da cidade, diz que já recebeu “pedidos” de pessoas que queriam aprender o ofício, mas ela se recusou a ensinar. “Só ensino se for escrevendo num papel”, diz, sem explicar o motivo da resistência.

Resistência, aliás, que se enfraqueceu depois que a benzedeira ouviu uma oração que ela interpretou como um aviso. Segundo ela, a oração tinha os seguintes dizeres: “Quem ver e não aprender; quem sonhar e não ensinar; na hora da morte três assopros há de dar”. Mesmo sem explicar o enigmático sentido de tais frases, dona Francisco reviu sua posição: “Agora vou ensinar”, disse.

Já a mãe-de-santo Terezinha Silva Jeremias, que mantém um terreiro de umbanda nas proximidades da Vila Independência, não se preocupa com a perda de seu patrimônio religiosos. “Tenho uns oito filhos-(de-santo) e minha tradição vai seguir”, garante.