08 de julho de 2026
Regional

Índios ainda mantém suas tradições

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Os índios terenas chegaram em Avaí em 1932, portanto, quando a cidade tinha três anos. Segundo o índio Lourenço de Camilo, a reserva Araribá, na época, era habitada pelos índios guaranis. “Uma epidemia de febre amarela atacou a tribo deles e eles precisaram da força de trabalho dos terenas.”

Os terenas vieram de Mato Grosso do Sul porque eram mais ativos no trabalho. “Foi o início. Eles estavam numa situação precária. A doença matou parte deles porque não havia remédio na época.”

Quatro famílias de terenas deixaram o Mato Grosso do Sul e vieram para Avaí. “Hoje são 150 famílias de Terenas. Temos quatro aldeias, duas terenas e duas guaranis. Uma tribo foi embora. Para melhorar a divisão de trabalho, cada tribo se desmembrou em duas.”

A agricultura familiar sustenta as famílias. “Nós cultivamos arroz e feijão para a subsistência. A mandioca é cultivada em grande escala. Estamos investindo um pouco mais para consumo interno e externo.”

E é da mandioca que os terenas tiram o seu prato predileto, o bolinho de mandioca. “É uma tradição da nossa tribo. O bolinho de mandioca faz parte do nosso cardápio típico.”

As mulheres na tribo terena cuidam do lar e da educação dos filhos, segundo Camilo. “Elas cuidam da casa e dos filhos. Algumas fazem artesanatos, mas nem todas partem para isso porque falta matéria-prima.”

Para manter as tradições indígenas, os terenas não esquecem da dança. “A dança faz parte da nossa cultura assim como o nosso idioma.”

Casas de alvenaria

Quem chega na aldeia dos terenas em Avaí esperando encontrar as tabas dos índios tem uma surpresa. Até pouco tempo, as moradias eram de madeira, mas um convênio com a Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano (CDHU) substituiu as casas de madeira por habitações de alvenaria.

São 133 casas em todas as tribos construídas por este sistema. Na opinião de Camilo, a evolução chegou aos índios. Para ele isso não descaracteriza a questão cultural. “A evolução faz com que a gente acompanhe o processo do não-índio. Nunca esquecendo da tradição e da cultura. Se a gente ficar sempre no como o índio era, a gente se perde.”

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Artesanato indígena

A tradição indígena também é mantida através do artesanato. Elizangela da Silva Pereira, por exemplo, aprendeu com o pai a fazer enfeites usando purunga. “Eu sou mestiça, mas meu pai era índio puro. Ele sabia fazer muitas peças e eu acabei aprendendo algumas”, diz a mulher, que vive na aldeia dos Terenas em Avaí.

Com a purunga, uma planta que pode ser cultivada na aldeira, ela confecciona bonecas, cinzeiros, palhaços, etc. Com palha ela faz leques e com sementes de várias plantas, colares. “Eu vendo as peças para quem visita a aldeia.”

Os índios guaranis, em 2004, participaram de um curso de artesanato em argila promovido pela prefeitura em parceria com o Sindicato Rural de Bauru e o Serviço Nacional de Aprendizado Rural (Senar). A intenção era resgatar a tradição de produzir peças de decoração e bijuterias a partir da argila, cascas de árvores e sementes.

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Escola bilingüe

As crianças das tribos terenas e guaranis são privilegiadas. Têm escolas dentro da aldeia e aprendem duas línguas ao mesmo tempo. Na aldeia Ekeruwá são 34 crianças que freqüentam a escola e falam português e a língua-mãe, o terena.

Zélia Luiz é a professora de 3.ª e 4.ª série da aldeia. Ela explica que as crianças têm mais facilidades para falar o português. “Por isso a gente está fazendo esse resgate da língua materna. Durante muito tempo os terenas deixaram a língua materna de lado.”

Há seis meses ela começou a dar aulas. “Faz seis meses que estou nesse trabalho. Sempre falei em terena. Fui criada pela minha avó que não fala em português, só na língua terena, mas nem todas as famílias fizeram o mesmo com seus descendentes e muitos esqueceram.”

A meta, de acordo com a professora é que todos falem a língua terena. “Queremos manter a cultura, então aplicamos a língua em todas as atividades. Se eles vão jogar bola, por exemplo, incentivamos que eles falem na língua terena.”

Durante as aulas, a professora usa a língua materna na maioria das matérias. “Uso para tudo. Quando o aluno chega atrasado e quer entrar na aula, exijo que ele peça permissão em terena.”

Nas aulas de matemática, geografia e história, o uso de palavras indígenas é uma constante. “Começo a aula em língua terena. Todas as palavras do português que têm tradução são utilizadas.”

As aulas bilingües incluem a escrita e a leitura, explica a professora. “Nossa acentuação é diferente e para que as palavras sejam pronunciadas corretamente é preciso ter atenção com a acentuação.”