Uma mulher que mede 1,65 m e pesa 55 kg é considerada em boa forma pela Organização Mundial da Saúde (OMS), porém, ao se olhar no espelho, ela pode se enxergar bem mais gorda. O desvio de percepção do corpo é bastante comum, mesmo em mulheres sem distúrbios alimentares, segundo estudo do professor Sebastião Almeida, do Laboratório de Nutrição e Comportamento da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto.
Ele desenvolveu uma pesquisa com 106 homens e mulheres adultos, que revelou que pessoas de peso normal, com sobrepeso e obesas se comportam de forma diferente diante de testes de reconhecimento corpóreo.
O estudo se baseou em uma escala padronizada de silhuetas, que foram apresentadas aos participantes do teste com duas perguntas: qual modelo consideravam mais próximo dos seus e qual consideravam o ideal.
Enquanto cerca de 48% das mulheres com peso dentro dos parâmetros aceitáveis para a estatura indicaram silhuetas bem maiores como sendo semelhantes às suas, com as obesas, o índice caiu para 10% - embora a insatisfação permanecesse, a distorção foi menor porque nelas o reconhecimento corporal é próximo do real, ou seja, elas sabem que estão acima das medidas.
Segundo a médica nutróloga Rida Sabbagh, pessoas com baixa auto-estima e confiança podem desenvolver uma identificação negativa ligada à própria imagem. “O que, não necessariamente, coincide com o reflexo no espelho’’, explica.
Dos pacientes de Sabbagh, a maioria é do sexo feminino. O número de mulheres em boa forma (29,6%) chega a superar o das obesas (28,57%) que a procuram. Peso ideal Com variação de 50% (entre as magras) e 80% (entre as obesas), as mulheres participantes da pesquisa da USP almejaram silhuetas ideais menores que as que ostentam. Dos homens com peso dentro da normalidade, em torno de 62% queriam uns quilinhos a mais - não em gordura, mas em constituição muscular.
Aos 18 anos, o estudante José Carlos Faria Júnior pesava 53 kg. Hoje, um ano e muita malhação depois, ele está oito quilos mais pesado. “Queria melhorar a aparência’’, disse o estudante, que pretende chegar aos 64 kg. “É muito difícil encontrar alguém confortável com o corpo. A pessoa pode até estar legal, mas quer sempre mais’’, disse a educadora física Luiza Costa, 34 anos.
Ela mesma afirma querer perder três quilos, transformando-os em massa muscular, embora seu peso (70 kg) esteja apropriado para a altura (1,74 m). Toda essa insatisfação, segundo Almeida, tem fundamento no padrão social de belo disseminado pela mídia. Os exemplos estão em toda parte - nas propagandas, nas passarelas, capas de revistas.
“Esse bombardeio de exposição acaba criando uma idealização de que corpo belo é um corpo magro. Embora inatingível pela maioria das mulheres, o padrão passa a ser perseguido e, mesmo aquela mulher considerada em boa forma, vai acabar desejando um corpo mais magro, porque somente assim se assemelha àquela imagem vendida pela mídia’’, analisa o professor Sebastião Almeida.
Somados aos padrões sociais, fatores individuais também podem contar, entre eles a ansiedade, deficiências nas relações afetivas e sentimentos de inadequação, segundo a nutróloga.