08 de julho de 2026
Nacional

Caixa traz seis discos de Erasmo

Por Luiz Fernando Vianna | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Com chapéu de caipira na cabeça e vara de pescar na mão, Erasmo Carlos pega na mentira na capa de seu primeiro disco solo, “A Pescaria”: estava nascendo ali, em 1965, juntamente do programa de TV “Jovem Guarda” e do batismo do movimento, um cantor/compositor que nunca se renderia à placidez, mantendo-se fiel ao rock e à inquietação.

Para perceber isso, é fundamental ouvir seus seis primeiros discos, a produção do período RGE (1965-1970) que volta às lojas em caixa lançada pela Sony BMG - com faixas-bônus que só tinham saído em compactos. Há dois anos, a Universal lançou os 15 CDs do período 1971-1988.

“Ela é ‘o sonho’, empolgou-se Erasmo na coletiva de divulgação da caixa. “Essa caixa carrega todos os anseios de liberdade que os jovens daquela época carregavam. A jovem guarda não foi mais do que o apelido brasileiro de uma revolução mundial, da qual eu me orgulho de ter participado”, disse.

As frases pontuadas por “bicho” e a devoção ao rock (“O rock veio para a gente acordar. Senão, estava todo mundo dormindo até hoje”) mostram que Erasmo é um resultado das tempestades comportamentais dos anos 60. A caixa ainda prova que ele foi muito mais do que o amigo de fé do Rei.

Enquanto Roberto Carlos atravessou o rock e o soul, e assumiu o trono das baladas românticas e dos hinos messiânicos, Erasmo nunca ficou sentado à beira do caminho do sucesso fácil. Se Roberto transformou o totem “Quero que Vá Tudo pro Inferno” em tabu, Erasmo transbordava, em 1970, ironia em “Estou Dez Anos Atrasado”, supostamente uma parceria com o “irmão camarada”: “Eu quero começar de novo/ Não quero acompanhar meu povo/ (...) E só dou meu coração/ Pra quem for da minha religião.”

“Essa música se tornou o hino do pessoal do [jornal] ‘Pasquim’. Eles viam como metáfora do que acontecia no País. Mas eu não tinha essa intenção”, assumiu Erasmo, avocando para si e os seus, no entanto, um papel político. “Uma guerra não se ganha só no front. Nós, da jovem guarda, lutamos com nossa vontade de sermos livres, embora não se saiba até hoje o que é ser livre.”

Liberdade pode ser, por exemplo, amar os Beatles e ameaçar, em nome das conquistas amorosas, acabar com a beatlemania. É o que faz no primeiro disco da caixa, o dos clássicos “Festa de Arromba” e “Minha Fama de Mau”. Ou ser erótico (“Você me Acende”) e amante à moda antiga (“A Carta”) no disco de 66.

No primeiro álbum de 67, ele corteja o passado em “Eu Sonhei que Tu Estavas Tão Linda”, mas se diz “O Tremendão” e manda avisar: “Vem Quente que Eu Estou Fervendo”. No segundo, acena para o samba da antiga (“Não me Diga Adeus”), faz sucesso com a pueril “O Caderninho” e não perde a fama de mau (“Cara Feia pra Mim É Fome”).

Em 68, Tim Maia (“Não Quero nem Saber”) reaparece na vida de Erasmo, que emenda “Senhor, Aqui Estou” com “Para o Diabo os Conselhos de Vocês”. No ousado disco de 70, estão claros o amor pela bossa nova (“Coqueiro Verde” e “Saudosismo”) e as influências dos arranjos e das idéias tropicalistas. Erasmo foi, é e será metamorfose ambulante.

“Há pessoas que ainda têm preconceito contra a jovem guarda. Falam bem, mas nas entrelinhas dão umas farpadas. Eu preferia que falassem mal”, disse ele, sempre “mau” e sincero.