Antonin Artaud, um intelectual francês que eu aprendi a admirar em suas análises sobre cultura e teatro, distinguiu claramente (no livro Messages révolutionnaires) dois tipos de nacionalismo: “Existe o nacionalismo cultural, no qual se afirma a qualidade específica de uma nação e das obras dessa nação e que as distingue; e há o nacionalismo que podemos chamar de cívico e que, em sua forma egoísta, resulta em chauvinismo e se traduz por lutas alfandegárias e guerras econômicas, quando não pela guerra total”.Tzvetan Todorov, no seu livro “Nous et les autores, la réflexion française sur la diversité humaine” traz uma outra distinção para nacionalismo: “Poderíamos considerar um sentido ‘interior’ e um sentido ‘exterior’”. No primeiro sentido (utilizado no decorrer da Revolução Francesa), a nação é um espaço de legitimação, opondo-se ao direito real ou divino: agimos em nome da nação, ao invés de nos referirmos a Deus ou ao Rei. Gritamos “Viva a Nação!” e não “Viva o Rei!”. No sentido “exterior”, uma nação opõe-se a outra: “Os franceses são uma nação; os ingleses, outra!”.
Para neutralizar o nacionalismo é necessário assumi-lo em todas as suas quatro dimensões (cultural, política, interior e exterior), inclusive naquilo que há de mais doloroso. E os burocratas, que dirigem o processo de unificação da Europa, decidiram adotar a política da avestruz ao fingir que os europeus estavam ansiosos em superarem as suas diferenças nacionais.
As contradições da política da avestruz ficaram evidentes quando o Leste Europeu, para se livrar do domínio comunista, apoiou-se em movimentos políticos nacionalistas, fortalecidos pela ação da mídia dos países capitalistas. Liberalismo e nacionalismo também foram os ingredientes que levaram ao colapso do comunismo soviético, com a insurgência ocorrendo desde a Ucrânia até a Armênia, das repúblicas Bálticas ao Azerbaijão. É irônico observar que o triunfo dos valores capitalistas liberais no Leste Europeu ocorreu ao mesmo tempo em que se reabilitavam valores nacionalistas. A Europa Ocidental fez triunfar sua filosofia capitalista no Leste Europeu, mas enquanto a Europa Ocidental tenta superar o velho nacionalismo pela construção da União Européia, busca expandir as fronteiras da mesma União Européia no Leste Europeu que quer se afirmar dentro do mais “ultrapassado” nacionalismo!
Não podemos esquecer que a resistência ao comunismo deu-se, essencialmente, por força da religião e do nacionalismo, na Polônia, na Hungria, na República Tcheca, na Eslováquia e, dentro da velha União Soviética, nos países do Báltico e nas regiões muçulmanas do Cáspio. E agora, com o aumento do desemprego, demonstrações de nacionalismo espalham-se também pela Europa Ocidental, estourando, por exemplo, na Alemanha. Com os custos de integração de países mais pobres à União Européia, cidadãos de classe média da França, da Bélgica, da Itália passam a achar que a tal União Européia para enfrentar a globalização não é mais um bom negócio.
Parece que o fantasma nacionalista está atacando o projeto de unificação européia. E se os burocratas da unificação fingirem que nacionalismo não existe, o fantasma acabará se transformando em monstro.
O autor, Ney Vilela, é professor