A cobertura maciça por parte de todos os veículos de comunicação da crise política brasileira colabora para a transparência dos fatos e no desfecho que, espera-se, seja de punição a todos os seus protagonistas. A avaliação é do professor de ética da comunicação Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo e representante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra no Brasil. Para ele, a cobertura jornalística da atual crise ainda está deixando a desejar na profundidade das investigações.
Mesmo com falhas, Di Franco analisa que a imprensa tem cumprido seu papel de trazer à tona as nuances que compõem a mais grave crise política da Nova República, que nasceu em 1985 com a eleição do mineiro Tancredo Neves à Presidência da República. O que falta à cobertura jornalística, na avaliação do professor, é mais profundidade na apuração dos fatos.
Defensor do resgate das grandes reportagens na mídia impressa, Di Franco cita como exemplo de bom jornalismo a série de matérias publicadas pelo jornal Extra, do Rio de Janeiro, na qual é relatada o cotidiano de uma moradora que decidiu filmar o dia-a-dia dos traficantes que rodeavam seu prédio.
Ele também critica alguns setores da imprensa que optam pela produção de “casos novos†para a geração de notícias, comportamento perigoso geralmente notado pelo leitor. Ainda sob a ótica do professor, a crise vai fortalecer a cidadania e a democracia no Brasil. “Eu sinto as pessoas mais envolvidasâ€, afirma.
Por último, Di Franco opina que a cobertura da imprensa norte-americana sobre a tragédia do furacão Katrina foi falha. O representante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra no Brasil diz, no entanto, que o jornalismo americano está em crise e submisso ao controle do governo. A seguir, a entrevista.
Jornal da Cidade - Qual é a avaliação que o senhor faz do comportamento da imprensa na cobertura da crise política brasileira?
Carlos Alberto Di Franco - Faço uma avaliação positiva. O Brasil está dando uma sacudida na área pública. Não sobra nenhum poder. Todos os poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) estão sob o foco das investigações. Isso seria impossível sem a presença dos veículos de comunicação. Recentemente, tivemos um fato simbólico, que foi a prisão do Maluf (Paulo Maluf, ex-governador e ex-prefeito de São Paulo). Há indícios fortíssimos de corrupção e ele está recebendo o mesmo tratamento de um cidadão comum, o que seria impensável há 15 anos. Como dizia Rui Barbosa, não há mais escaninho, não há mais segredo nas coisas. Quem faz bandalheira, um dia a bandalheira vai estourar. O que falta à imprensa é se aprofundar mais nos assuntos. Ela está muito mais repercutindo os fatos.
JC - E o que falta à imprensa para que se aprofunde mais nos assuntos de grande importância, de repercussão nacional?
Di Franco - É preciso fazer uma autocrítica séria a respeito dos rumos do jornalismo. Por quê estamos perdendo leitores? Como é possível um País do tamanho do Brasil ter um índice de leitura, comparativamente falando, idêntico ao do Paraguai? Porque os jornais, entre outras coisas, mataram as reportagens. Tanto é assim que quando o jornal Extra, do Rio, consegue publicar a série de reportagens com uma senhora que observava e gravava em vídeo a rotina dos traficantes, o assunto ganhou o plano nacional. Quem é que investiga? É quem tem o hábito de ir atrás. Hoje, o jornal está muito pasteurizado. O pauteiro, dependendo da posição que ele ocupa na geografia da redação, não sabe como está o tempo. Quer dizer, o cara que vai dizer para os outros como é que está a vida, não sabe nem como é que está o tempo. Tem de haver uma revolução no conteúdo; é preciso resgatar a reportagem.
JC - Por que, com o passar das décadas, os jornais deixaram de produzir grandes reportagens, mais investigativas e aprofundadas?
Di Franco - Durante muitos anos, o controle das redações estava subvertido por pessoal formado pela cultura jornalística. Você olha um pouquinho para o passado e vê grandes matérias da Folha, do Estadão, reportagens premiadas. Há um momento em que há um avanço do marketing sob a redação. Não acho que o marketing seja uma coisa complicada ou maléfica, mas ele deve ocupar o seu lugar. Acho que o marketing acabou desvibrando o jornal. A preocupação com o jornalismo hard foi sendo substituída pela preocupação com o jornalismo light, de serviços. Até há pouco tempo, as revistas semanais davam capas sobre as gordas, o problema do peso. Quer dizer, foi-se substituindo o que realmente marca o jornalismo por coisas fúteis. Deixam de contar uma história bonita, divertida, interessante, ou os bastidores da política, por um jornalismo de laboratório. Quando Ricardo Noblat assumiu o Correio Braziliense, ele não tinha pauteiro. O que ele fazia: enchia uma perua Kombi de repórteres e soltava todos eles no eixão (Esplanada dos Ministérios) e avisava: ‘Me tragam vida’. Ao final do dia, a Kombi recolhia os repórteres, que voltavam com várias matérias interessantes. Hoje as entrevistas são feitas por telefone. Você não tem o “face to faceâ€, você não vê como reage o entrevistado. É um jornalismo absolutamente desvinculado do real.
JC - A crise política já se arrasta por quatro meses. O leitor tem paciência o suficiente para agregar ao seu cotidiano os fatos novos que vão surgindo no dia-a-dia?
Di Franco - Eu acho que sim. Algumas pessoas insistem que tudo isso é uma tragédia. Eu penso o contrário. A democracia está se fortalecendo. O povo está adquirindo a consciência de que tem de mexer não apenas na superfície, mas na estrutura do País, através da cobrança de reformas, da transparência no sistema eleitoral. Eu sinto as pessoas mais envolvidas. Você passa no Centro de São Paulo num dia como hoje (quarta-feira, 14), e vê pessoas paradas nas lojas acompanhando o depoimento do Gushiken (Luiz Gushiken, chefe do Núcleo de Assuntos Estratégicos do governo federal) em aparelhos de televisão como se fosse um dia de Copa do Mundo. O povo tem consciência de que deve acompanhar a crise.
JC - Com a crise política, o que se viu foi uma corrida desenfreada em busca do furo jornalístico. Alguns fatos relatados, inclusive, não se confirmaram. Esse comportamento cansa o leitor?
Di Franco - Sem dúvida. Existem matérias sólidas e outras cuja pauta não se sustenta. Se criou por parte de alguns setores da imprensa a obrigação de se produzir sempre um novo caso. Se você não tem novo escândalo, se cria a notícia. Não é por aí. Isso realmente pode cansar o leitor. É preciso ter muito cuidado com isso.
JC - Vamos trocar de crise. Alguns analistas avaliam que a imprensa norte-americana não deu a devida importância à cobertura dos estragos provocados pelo furacão Katrina, nos Estados Unidos. O senhor concorda com essa avaliação?
Di Franco - A imprensa norte-americana está passando por uma grande crise. De alguns anos para cá, ela ficou quase que uma refém do governo americano. O jornalismo americano investiga pouco, denuncia pouco. É uma imprensa que se submete a comparecer a uma guerra com os papéis completamente controlados, monitorados. Ela transmite uma guerra com cenas fornecidas e autorizadas pelo governo norte-americano. Os Estados Unidos deram um passo para trás. Os americanos já produziram uma imprensa que foi capaz de derrubar o presidente com um jornalismo de altíssima qualidade. No episódio do Katrina, sem dúvida, a imprensa americana não deu a informação no grau da gravidade do que efetivamente aconteceu.
JC - O senhor acha que o governo americano tem o controle da imprensa ou realmente, neste caso específico do Katrina, houve falha na cobertura jornalística?
Di Franco - Independentemente do controle ou não, já se instalou na imprensa americana uma cultura acomodada. Esse é um segundo momento da doença.