09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Atuação ridícula e burra da Polícia Militar


| Tempo de leitura: 6 min

Cheguei a pensar em suavizar o tom desta crítica. Mas não consegui encontrar argumentos. Pensei, pensei e achei-a pra lá de merecida.

Que bauruense não conhece o cruzamento das ruas Gustavo Maciel e Antônio Garcia? Para quem não o identifica pelo nome das ruas, aqui vai a dica: é aquele que, quase todo sábado e domingo, à tardinha e à noite, fica engarrafado, defronte ao famoso B.B.Batatas.

Várias vezes já me vi, inopinadamente, “preso” naquele engarrafamento. Geralmente por obra e graça de jovens que, sentindo-se donos da rua, e numa atitude de total desrespeito para com os demais usuários da via pública, simplesmente resolvem parar seus carros no meio da rua para bater papo com alguém que esteja a pé no local. Em algumas dessas vezes eu estava com alguma pressa e passei muita raiva. Ficava pensando na situação de alguém que verdadeiramente estivesse com pressa: alguém que não está passando bem ou que está correndo para atender um chamado de emergência.

Nessas horas, pensava: como pode todo santo fim de semana isso acontecer? Por que a Polícia Militar nunca está aqui para impedir que o trânsito pare? Bastaria um ou dois milicos vigiando a esquina e tudo estaria resolvido! Onde está a PM? - repetia a mim mesmo, indignado. Impossível ela não saber o que está acontecendo - concluia. Em minha idealização, o policial não estaria ali para multar freneticamente. E sim para, diante de uma tendência (real, natural, esperada) de lentidão, buscar revertê-la, dando ordens de “mova-se” a quem estivesse barrando o fluxo e, claro, multando os reticentes em obedecer. Estaria, a um só tempo, educando e impondo a devida ordem com o meio correto (multa).

Até porque uma coisa é o trânsito ficar um bocadinho lento na frente de algum lugar com grande afluxo de pessoas. Coisas da vida, não estamos na Suécia... Outra, bem diferente, é o trânsito parar completamente por cinco, dez, até quinze minutos, com direito a “buzinaço”, para desespero da vizinhança, situação que já presenciei dezenas de vezes. A primeira situação (curta e breve lentidão) é tolerável, compreensível. A segunda (retenção total e sem justa causa) é tanto mais inaceitável quanto maior a sua previsibilidade por parte das autoridades de trânsito.

Sempre achei uma falta de respeito ao cidadão a raridade com que a Polícia dá as caras naquela esquina, até porque, ali, não apenas o trânsito é fonte potencial de irregularidades, mas também a bebedeira, a gritaria, os hormônios adolescentes fervilhando, os carros com volume de som exagerado, etc, etc. E não é só lá que tudo isso se passa sem que, em regra, a polícia sequer se faça presente. Outro dia, sem querer, peguei a rua que passa em frente à tal boate chamada Dáblio. Quinze minutos parado, baderna em profusão, buzinas em transe, e a polícia? Nem sinal... Indignado, liguei para o 190, narrei o que ocorria. Nenhuma viatura apareceu.

Mas eu tinha para mim que a má conduta da polícia não passaria dessa vergonhosa omissão. Qual não foi minha surpresa quando, domingo passado (11 de setembro), já umas onze da noite, dobrando aquela esquina do B.B.Batatas a cinco ou dez por hora - sim, confesso, estava devagarinho, olhando para quem estava no bar - dou de cara com dois PMs alegremente posicionados de modo que eu não os visse e, mais alegremente ainda, anotando a placa do meu carro para autuação por infração de trânsito. Vergonhosa ação!

Eu estava voltando para casa. Naquele horário o trânsito já estava totalmente calmo. Quem quisesse passar não seria impedido pelo fato de eu ter dobrado a esquina devagar. Aliás, tenho certeza que não havia ninguém atrás de mim. Ainda que houvesse, a outra faixa de trânsito estava completamente desimpedida. Não cheguei a parar o carro. Não conversei com ninguém com o carro parado. Só trafeguei devagar, por aproximados dez segundos. Enfim, não havia como alguém dizer que eu estava atrapalhando o trânsito. Até porque não havia “trânsito” efetivo além do meu carro. A vingar essa prática, não poderemos mais, por exemplo, reduzir a velocidade numa rua residencial sem movimento para olharmos o número de uma casa que procuramos ou para lermos o nome da rua numa placa...

Embora a velocidade de meu carro não tenha sido aferida, não nego que, teoricamente, eu pudesse estar incidindo na infração de dirigir abaixo da velocidade mínima. Mas não é isso que questiono. Questiono, isso sim, a tremenda irrazoabilidade da estratégia da PM que, ao invés de usar seu aparato - por todos nós custeado - para imprimir um pouco de educação e para evitar previsíveis e conhecidos exageros, simplesmente põe o cidadão em ciladas pueris como essa, que nada educam, que nada resolvem e, acima de tudo, que nada contribuem para que a instituição angarie respeito.

A Polícia de Trânsito - viu, senhor comandante? - existe, em última instância, para uma única missão: fazer com que o trânsito flua, e com segurança. Multar deve ser mera conseqüência da busca pelo cumprimento dessa missão, e nunca uma finalidade autônoma.

Se vier multa, vou pagar sem recorrer, pois provavelmente eu estava cometendo a infração. Aliás, costumo admirar a atitude da autoridade que, diante de uma irregularidade, mostra-se enérgica e rigorosa, sem dar margem a “jeitinhos” (eufemismo para prevaricação). Mas - como disse - o ponto não é este. É que a incoerência é tanta, mas tanta que, até para fazer o que é estritamente legal, a Polícia, a meu ver, fica sem moral nenhuma.

Amanhã vou viajar para Ribeirão Preto, onde estou morando. Entre Jaú e Araraquara, a pista é simples e sinuosa. Os caminhões abarrotados de cana, a cinco ou dez por hora, estarão lá em qualquer horário, em qualquer subida. Atrás deles formam-se imensas filas, de dezenas de carros. A extensão dessas filas, aliada à ansiedade que a – aí sim! – exagerada e grave lentidão provoca nos demais motoristas, faz com que estes se arrisquem em perigosas e simultâneas ultrapassagens. Ou faz com que a viagem demore mais do que o planejado, criando a tendência de se “tirar atraso” depois. Pergunte se a Polícia está lá, multando por baixa velocidade quem realmente está atrapalhando (velocidade mínima 40, efetiva 5 Km/h, oito vezes de diferença)? Não, ela está multando onde a mínima é 20 e a efetiva é 10. Detalhe: sem medir a velocidade do veículo e sem se preocupar se está dificultando ou não o trânsito. Será que a polícia Rodoviária (que é um ramo da Militar) não sabe nada sobre os caminhões de cana? Se não sabe é porque não está cumprindo o dever de patrulhar. Se sabe e ainda assim não faz nada... bem, deixemos essas razões ocultas para uma outra oportunidade. Com toda certeza não se trata de subserviência aos usineiros, pois estes jamais se valem de seu poder econômico para manter as autoridades “sob controle”...

A certos infratores contumazes, a condescendência. Ao cidadão comum, a canetada fácil, tola e impensada.

André Menezes