O ensaísta Gilberto de Mello Kujawski definiu bem a crise nacional brasileira, ao afirmar que o Brasil parece ter tomado um daqueles fortes purgantes, que põem para fora o que não está bem no organismo, purificando-o para uma metabolização mais saudável de suas funções. Estamos vivendo um pouco essa situação na atual crise da política nacional. A cassação do deputado Roberto Jefferson foi o começo do expurgo, e o Congresso Nacional demonstrou, na sessão do último dia 14 que soube dar a resposta que a sociedade brasileira está exigindo: a afirmação da ética na política como fato concreto e não apenas retórica. A exigência pela ética tem sido um fermento que vem crescendo na consciência dos cidadãos brasileiros, que já não aceitam mais os arcaísmos das práticas políticas do passado. A atual crise vem demonstrando o amadurecimento das instituições democráticas.
A crise política (por mais grave que seja) não tem repercutido na área econômica e tem dado até vigor à sociedade civil para exigir o respeito à lei e o cumprimento da ética na prática política. “A vontade do povo brasileiro de construir um País justo, honesto, fraterno, respeitado no conjunto das nações e próspero para todos é maior do que a crise”, como afirmou o cardeal arcebispo metropolitano de São Paulo, dom Cláudio Hummes. Os 313 votos a favor da cassação de Roberto Jefferson foi o primeiro sinal de que os deputados souberam expressar o sentimento da opinião pública brasileira que quer a ética como imperativo para a atividade política.
É possível que o ”purgante” faça expelir outros parlamentares, num processo de purificação nunca visto em nossa história republicana, mostrando o efeito positivo da crise. É possível que a degola chegue até o presidente da República, vitimando, inclusive, o vice. Talvez, por isso, os deputados tenham decidido varrer Severino Cavalcanti da presidência da Câmara Federal, pois há uma apreensão de que a crise chegue ao Palácio do Planalto e não seja possível evitar o impeachment. E então? O Brasil ficaria nas mãos de Severino Cavalcanti? A estratégia seria substituir o quanto antes o presidente da Câmara, colocando alguém de preparo intelectual, probidade e equilíbrio político, para que possa, na eventualidade do impeachment de Lula, o Brasil estar bem representado. Daí, a importância capital para a solução imediata dessa crise, na escolha do substituto de Severino Cavalcanti, que tem chances de ocupar o Palácio do Planalto, ao menos até as eleições de 2006.
A impressão que vamos tendo, em meio a todo esse imbróglio, é que sairemos melhores dessa crise. O Brasil vai mostrar ao mundo que suas instituições democráticas estão sólidas e que podemos estar deixando de ser o País da impunidade, para enfim, sermos o País sério que desejamos. Seriedade no que diz respeito a fazer da ética um dos pilares de sustentação da nossa democracia. Queremos um País justo e próspero, por isso temos esperança de que a atual crise nacional permitirá práticas políticas saudáveis, que realmente visam a promoção do bem comum e a dignidade da pessoa humana. É isso o que almejamos e esperamos que aconteça, para o bem das próximas gerações.
O autor, Valmor Bolan, é doutor em sociologia, reitor da Universidade de Guarulhos, vice-presidente do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras e diretor geral da Faculdade Editora Nacional - e-mail: valmorbolan@faenac.edu.br