08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Viagem


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Li a crônica de Ercília Pollice (8/9). Tais lembranças levaram-me a meditar sobre o passado; nas viagens que fazíamos pela Paulista, Bauru a São Paulo, do carro restaurante de Benedito Pedroso, do “Arcesp” que lá era servido, prato preferido dos viajantes, do carro dormitório com os leitos centrais disputadíssimos. Os mais idosos terão em mente a parada em Itirapina, onde existia um relógio solar e na estação saboreava-se excelente pastel. Saudade, dona Ercilia; muita saudade de tempos que jamais voltarão. Realmente, passeando pelas composições, víamos as diferenças de classes sociais, carros de primeira e de segunda, inclusive o “pulman”, dos mais abastados, com bancos de couro e atendimento personalizado.

Mas, por que essa viagem não tem retorno, já partiu, temos que nos consolar com o descortínio progressista e materialista que aboliu a ferrovia, enfatizando o sistema rodoviário para desenvolvimento da indústria automobilística.

No mesmo diapasão filosófico de que nossas viagens são “cheias de atropelos, sonhos e fantasias, esperanças, surpresas, embarques e desembarques”, quando de uma de minhas andanças por nossas rodovias, também meu pensamento divagou pelo espaço etéreo e fantasioso de minhas elucubrações sobre nossos destinos. E ali, sozinho na direção de um veículo, sem ninguém para ocupar comigo “o mesmo vagão”, pensei no “Asfalto da Vida”, que assim escrevi:

Pelo asfalto da vida vou caminhando.

Esfarrapado. Rotos os pés. Rosto suado.

Pelo asfalto da vida vou caminhando.

Idéias em burburinho. Mente distante.

Olhar pétreo, ignorando o instante.

Viver, morrer, não importa.

A caminhada é extenuante,

O asfalto escaldante.

O tempo, a vida. Nada conta.

São etapas para o viandante.

No chão o negrume da maldade,

No céu, a fantasia colorida;

Ao lado, a infâmia da cidade.

Pelo asfalto da vida vou caminhando.

Sem destino, sem rumo; vou ao léu.

Na contramão do asfalto da vida.

Que vida? Que destino?

Que razão? Que desatino?

Palhaço do divino, servindo de cobaia para os santos.

Invólucro, só carcaça, nada mais.

Vou caminhando pelo asfalto da vida,

Sem saber aonde chegar; e se vou chegar.

Itamir Crivelli