Agudos - Por determinação judicial, cerca de 30 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) deixaram ontem uma área de 130 alqueires da Fazenda Santa Branca, no município de Agudos (18 quilômetros a sudeste de Bauru). A propriedade particular foi ocupada no último dia 10 e o juiz da Comarca de Agudos, Adilson Aparecido Rodrigues Cruz, expediu a reintegração quatro dias após. A saída das cerca de 100 pessoas foi tranqüila, bastando à Polícia Militar acompanhar o desmanche de barracas e desocupação da fazenda.
O coordenador estadual do MST, Avelino Rodrigues, conta que a área foi ocupada pela quarta vez de forma estratégica para as pretensões de reforma agrária do MST na região. Ele explica que as 200 famílias do Assentamento Zumbi dos Palmares, ao lado da Fazenda Santa Branca, faziam rodízio na ocupação da propriedade invadida. “É uma forma de pressionar o governo e demonstrar ao Poder Judiciário que ele precisa se pronunciar para que essas terras voltem para as mãos do governo e possam ser repassadas para os trabalhadores.”
As desocupações da fazenda têm sido pacíficas, conforme Luiz Barbosa, administrador da fazenda. A propriedade invadida faz divisa com o assentamento localizado na cidade de Iaras (90 quilômetros a sul de Bauru) e que foi regularizado recentemente pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
O comandante da operação de reintegração de posse, o major PM José Humberto Nardo, contou que, na última sexta-feira, os sem-terra prometeram sair do lugar na segunda-feira desta semana, mas colocaram como condição a doação de lonas. O major acrescenta que o proprietário até se dispôs a atender a solicitação, mas os sem-terra não desocuparam a fazenda. Diante disso, foi montado um aparato policial que, conforme Nardo, apenas apoiou dois oficiais de justiça para o cumprimento da determinação judicial.
O sem-terra iniciaram a desocupação às 8h, com a chegada dos representantes da Justiça e do policiamento. Imediatamente, as famílias foram carregando roupas e utensílios domésticos para carros e uma picape. Na seqüência, recolheram as lonas, desmontaram os barracos e carregaram as estruturas em um caminhão. Os sem-terra sempre escolhem a faixa de terra na beira de uma represa que abastece o assentamento e a fazenda.
Por volta das 10h, o grupo de sem-terra voltou para o Assentamento Zumbi dos Palmares em um ônibus de turismo empregado na reintegração da terra.
O 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM-I) designou para a operação cerca de 60 policiais militares, que apenas observaram a saída do grupo de sem-terra. Nardo explica que foram mobilizados PMs de Lençóis Paulista e o Pelotão de Choque de Bauru. O helicóptero Águia ficou de prontidão no local para qualquer emergência.
Duas ambulâncias e uma equipe do Conselho Tutelar de Agudos também foram mobilizadas para a desocupação.
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Disputa
Os 130 alqueires invadidos da Santa Branca compõem a Fazenda Globo, formada por aproximadamente 450 alqueires, segundo informou o administrador Luiz Barbosa. Além das plantações de trigo, triticale e aveia, há criação de gado, que fica a cerca de dois quilômetros do lugar ocupado pelos sem-terra. Toda área pertence a João Carlos Camolesi.
O produtor Ernesto Labs Júnior arrenda há dois anos a fazenda Santa Branca, onde produz os cereais (trigo, aveia e triticale) no inverno. No verão as terras servem ao plantio de soja.
Conforme Júnior, a invasão pode causar perda de trigo e triticale, que deveriam ter sido colhidos há 15 dias, período que coincidiu com a ocupação dos sem-terra. “Está correndo risco desses cereais não servirem mais para a farinha e serem usados como ração. Soltaram animais deles, circularam com veículos leves e pesados e cortaram a cerca do vizinho e soltaram 250 cabeças de gado que permaneceram aí por mais ou menos uma semana comendo a lavoura”, disse. O produtor avalia que pretende buscar na Justiça ressarcimento dos prejuízos que ainda irá calcular.
Segundo o coordenador estadual do MST, Avelino Rodrigues, a área pertenceria à União e teria sido ocupada por grileiros. “Gostaria de fazer um apelo ao Poder Judiciário para que lesse e relesse os processos porque as terras foram compradas pelo governo federal entre 1908 e 1909. Portanto, o Poder Judiciário em sua altivez vai retomar essas terras para beneficiar milhares de trabalhadores sem-terra.”