10 de julho de 2026
Nacional

Apolônio de Carvalho morre aos 93 anos, no Rio

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Rio - Participante da Intentona Comunista de 1935, da Guerra Civil espanhola, da Resistência Francesa contra os nazistas e da guerrilha contra o regime militar brasileiro, o ativista político Apolônio de Carvalho, 93 anos, morreu ontem às 18h35 em consequência de uma insuficiência respiratória na Casa de Saúde Portugal, no bairro do Rio Comprido (zona norte do Rio).

Nascido em Corumbá (MS) em 1912, Apolônio era chamado pelo escritor Jorge Amado de “o herói de três pátrias”. Iniciou sua militância política na década de 30, como filiado do PCB. Foi um dos fundadores do PT em 1980, tendo assinado a ficha número do 1 partido. Apolônio dizia que continuava “apaixonado” pelo partido e que as críticas que o governo do PT vinha recebendo ajudavam “a fazer um trabalho melhor”. Era casado há mais de 50 anos com Reneè France, ativista política francesa. Deixa dois filhos, René Louis e Raul.

Apolônio havia sido internado há dois dias na Unidade de Terapia-Intensiva (UTI) com um quadro de pneumonia e descompensação cardíaca. Segundo os médicos, estava lúcido até pouco antes de morrer. Anteontem, recebeu a visita do ministro da Saúde, Saraiva Felipe (PMDB), com quem conversou longamente. A equipe médica do hospital informou que seu quadro era estável, mas que a idade avançada precipitou a morte.

Segundo-tenente do Exército brasileiro, mas expulso da corporação, em abril de 1936, por sua participação na Intentona Comunista, Apolônio esteve no centro de uma polêmica no início do governo Lula. Sua promoção a general foi sugerida pelo ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, mas o Exército soltou nota, criticando a proposta, dizendo que não se enquadrava nos “requisitos exigidos”. Apolônio classificou “de uma agressividade gratuita” a reação da sua antiga Força.

Preso em razão da Intentona, tornou-se comunista e formalizou sua adesão ao PCB em junho de 1937. Em seguida viajou para a Espanha, onde lutou em defesa do governo republicano na Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Após a derrota, Apolônio se refugiou na França, onde se engajou, em 1942, na Resistência Francesa contra a ocupação nazista. Em 1944, quando a França foi libertada, ele comandava 2 mil homens.

Em dezembro de 1946, retornou ao Brasil com sua mulher, Renée, e se reintegrou ao PCB. Afastado do partido em 1967, fundou o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) em abril de 1968, participando da luta armada contra o regime militar. Preso e torturado em 1970, foi banido para a Argélia em troca do embaixador alemão. Voltou ao País após em outubro de 1979, após a Anistia. Em fevereiro de 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores.

Em depoimento à Fundação Perseu Abramo, Apolônio definiu-se contra o culto às personalidades. “Nunca tive culto à figura do Prestes. Mesmo ao jovem Fidel a gente olhava com carinho, com respeito, mas sem culto. Para nós, a Revolução de Cuba era muito interessante, mas dentro de realidades diferentes, de condições internacionais extremamente diversas. A gente já possuía essa visão crítica.”

Trinta anos depois do golpe de militar de 1964, acusou a direção partidária do PCB de estar desinformada. “Como no passado, o PCB, por meio de seus dirigentes, estava fora da realidade, não acreditava num golpe armado.

Segundo, acreditava na capacidade e vontade de resistência do governo Goulart e das forças aliadas representadas pela burguesia nacional. Terceiro, deixou o País imobilizado pela crença de resistência, no caso eventual de choque armado, porque havia um dispositivo militar do governo - que, aos olhos do movimento popular, seria capaz de resolver todos esses problemas. Tudo castelos de cartas, ilusões.”