08 de julho de 2026
Ser

Turma dos quietinhos

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Numa sociedade pautada pela imagem, na qual a regra é aparecer a todo preço, os tímidos são os mais atingidos. Sofrem com a pressão no ambiente de trabalho, cada vez mais ávido por dinamismo e liderança. Sentem-se ameaçados na escola, quando precisam falar publicamente ou expor suas idéias, e encontram dificuldades em expressar emoções, o que pode, muitas vezes, prejudicar as relações de amizade e namoro, aponta a psicoterapeuta Jane Cristine.

De acordo com ela, na maioria das vezes, o tímido se sente tenso, ansioso e nervoso em situações que, para as outras pessoas, são vistas como prazerosas e agradáveis. “A timidez é um desconforto, um conjunto de sinais e sintomas de ansiedade leve ou moderada diante de situações sociais que podem atrapalhar a pessoa a alcançar seus objetivos pessoais e profissionais”, diz.

“O tímido se afasta das pessoas e das oportunidades e fica extremamente preocupado com o que o outro vai pensar a seu respeito. Isso o impede de ousar, demonstrar seus desejos, sonhos e interesses de vencer e ser feliz”, complementa Cristine.

Segundo dados divulgados ano passado pela revista Época, quase metade da população mundial diz sofrer de timidez em alguma fase da vida. “Geralmente o tímido é mais inseguro, fica acanhado frente muitas pessoas, necessitando, na maioria das vezes, de estímulo e aprovação dos que estão à sua volta para sentir-se confortável em determinadas situações”, explica a consultora e psicóloga organizacional Regina Maura Pereira Torres.

O estudante Thiago Tokumitsu, 19 anos, convive com a timidez em diversos momentos de sua vida. “Sou bem tímido em público”, conta. Já com amigos próximos e familiares, Tokumitsu diz se sentir bem à vontade. “É bem mais fácil se soltar com pessoas que conheço há tempos”, diz.

A mesma desenvoltura, porém, não aparece na hora da paquera. “Acho que meus amigos têm muito mais facilidade nessa parte”, brinca. “Mas, mesmo com vergonha, sempre tento falar e me expressar, para quebrar essa barreira”, ressalta o estudante.

Segundo estudo realizado pelo professor Thomas Harrell, da Faculdade de Administração de Stanford e publicado no início do ano pela revista Época, a fluência verbal é característica comum entre pessoas bem-sucedidas. Cristine aponta que uma das maiores dificuldades dos tímidos é falar em público.

É o caso da estudante universitária Mariana*, 26 anos. “Na faculdade, sofro muito antes de apresentar um trabalho. Para se ter uma idéia, já estou angustiada com a apresentação do meu trabalho de conclusão de curso, que nem será este ano”, conta.

Segundo Cristine, um tímido pode ter medo de falar em público e não ter nenhum problema nos relacionamentos de amor ou amizade. “Nesse caso, é uma timidez situacional, mais fácil de ser superada”, pontua.

“Com meus familiares e com meu namorado, não tenho problemas em demonstrar sentimentos, mas com pessoas que não são próximas isso é quase impossível”, revela Mariana. A estudante de pedagogia Pollyana Zavitoski, 20 anos, vive situação semelhante.

“Em casa, com amigos e meu namorado, é muito mais fácil lidar com a timidez. Já com outras pessoas ou situações diferentes, prefiro primeiro observar para depois me expor”, diz ela, que encontra dificuldade em falar em público. “Uma dessas situações é quando tenho de apresentar trabalhos ou seminários”, conta Zavitoski.

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Sintomas

A timidez se manifesta de diversas formas. Fisicamente, a pessoa pode suar frio, guaguejar, ruborizar-se, tremer, sentir taquicardia ou náuseas, aponta a psicoterapeuta Jane Cristine.

O comportamento também se altera: o tímido pode falar mais baixo ou com a voz trêmula, ter medo de expressar-se em público, olhar quase sempre para o chão, manter a postura curvada. Psicologicamente, na maioria das vezes cultiva pensamentos negativos, possui baixa auto-estima, dificuldades em se relacionar socialmente e tem medo de fracassar.

A timidez atrapalha a vida de Mariana*, conta ela. “É mais difícil me comunicar e às vezes não faço tudo que tenho vontade”, diz. Dependendo da situação, quando recebe um elogio, por exemplo, a estudante fica tensa e se ruboriza. “Aí aparece minha ansiedade e começo a rir para esconder o nervosismo”, confessa.

É importante não confundir timidez com introversão, ressalta a consultora e psicóloga organizacional Regina Maura Pereira Torres. “No segundo caso são pessoas mais reservadas, porém com capacidade de assertividade e tomada de decisão quando necessário”, aponta.

* Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada