“Você não está feliz!”, disse o balde para o companheiro quando estavam sendo levados para o poço. “Ah!”, respondeu o outro balde, “eu estava pensando como a nossa vida é sem sentido. Saímos do poço cheios, para depois retornarmos novamente vazios!” “Este é o motivo de sua tristeza?”, perguntou o amigo, “eu já compreendo a vida de outra forma. Eu me alegro pelo motivo de retornarmos vazios, pois assim nos tornaremos novamente cheios!”
Em uma carta a seu discípulo Lucílio, Sêneca chama a atenção para a agitação do pensamento, a irresolução diante da vida, na qual, muitas vezes, nos encontramos. Esta agitação do pensamento ou irresolução Sêneca denomina “stultitia”, ou melhor, insensatez. A insensatez é alguma coisa que a nada se fixa e que em nada se realiza. O estulto, ou seja, o insensato, é aquele que está à mercê de todos os ventos, aberto a todos os fenômenos, ou seja, aquele que deixa entrar no seu espírito todas as representações (valores, costumes, modismos...) que o mundo exterior lhe pode oferecer. Ele aceita estas representações, porém, sem as examinar, sem saber analisar o que elas na verdade representam. Sua aceitação é tão acrítica que depois que estas representações entraram em seu espírito, o insensato não é capaz de fazer a separação entre o conteúdo destas representações e a sua própria subjetividade, ou seja, suas próprias opiniões, vontades e seus próprios valores.
O insensato não é somente acrítico frente ao seu universo exterior, mas também ele se encontra sempre disperso no tempo. Ele é alguém que de nada se lembra, que deixa a vida correr, que não tenta reconduzi-la a uma unidade pela rememorização do que merece ser memorizado. Ao mesmo tempo em que o insensato não possui memória, ele também não dirige sua atenção, seu querer, em direção a uma meta precisa e bem determinada. O estulto deixa a vida correr e não possui uma constância em seus rumos. O insensato muda continuamente de opinião. Sua vida desenvolve-se, portanto, sem memória nem vontade. Por isso, no insensato, ocorre uma perpétua mudança de modo de vida sem a finalização de praticamente nada. Neste sentido que Sêneca adverte que nada é mais nocivo que alterar o modo de vida conforme as circunstâncias e os momentos.
Justamente a abertura acrítica para o mundo exterior e a dispersão no tempo fazem com que o indivíduo insensato seja incapaz de querer o que convém. Querer o que convém significa, em primeiro lugar, ter uma vontade livre. Querer livremente é querer sem qualquer determinação de acontecimentos, representações ou inclinações. O insensato não possui uma vontade livre, mas sim determinada pelo que vem do exterior e interior. Em segundo lugar, querer o que convém é querer absolutamente. O insensato quer várias coisas ao mesmo tempo, coisas divergentes e, muitas vezes, contraditórias. “A primeira condição para ser alguma coisa é não querer ser tudo ao mesmo tempo” (Tristão de Ataíde). O insensato quer algo e ao mesmo tempo o lastima. Assim, ele quer a movimentação das baladas, mas lastima por não levar uma vida mais tranqüila. O insensato é aquele que quer, mas quer com inércia, quer com preguiça, sua vontade se interrompe sem parar e muda rapidamente de objetivo.
O objeto que se pode querer livremente, sem ter que levar em conta as determinações exteriores é, evidentemente, um só: o “eu”. O nosso próprio eu é a única propriedade possível e absoluta. De forma alguma, se defende aqui o egoísmo, no qual desejar o próprio eu é anular ou excluir outras pessoas e se impor sobre elas. Quem valoriza o seu eu, quem pensa em seus atos e deseja ser respeitado em sua maneira de ser e querer, deve também, para não ser contraditório, respeitar o outro em sua própria maneira de ser. “Ama o próximo como a ti mesmo” (Rm 13, 9).
O insensato é aquele que não quer a si mesmo, aquele cuja vontade não está dirigida para o único objeto que se pode querer livremente, absolutamente e sempre: o seu próprio eu. No fundo, o insensato não se tolera, por isso precisa fugir de si mesmo através de motivações exteriores e novas experiências. Para superar a insensatez é preciso fazer tender a vida o mais rapidamente possível para seu objetivo, que é a completude de si na velhice. “Apressemo-nos para ser velho”, diz Sêneca. Afinal, a velhice, como estado de espírito, constitui o ponto de polarização que permite fazer tender a vida a uma só unidade.
O insensato, porém, não pensa na velhice, não pensa na temporalidade da própria vida a fim de ser polarizada na consumação de si na velhice. “Nenhum ser humano pode ignorar que tem de morrer, nem deve ter certeza de que isso não possa acontecer ainda hoje” (Cícero).