Completar 18 anos é, formalmente, o principal rito de passagem de nossa sociedade. Legalmente, é quando assumimos a responsabilidade plena por nossos atos. É quando tudo o que foi plantado e assimilado durante a infância e a adolescência - bases e ferramentas da vida - passam, definitivamente, às nossas mãos. É quando estamos, teoricamente, livres para “voar”! A jovem acabara de completar seus 18 anos!
Seria seu momento de auto-afirmação, de busca de caminhos próprios, de alçar vôo em busca de seus sonhos! Mas, desde cedo, seu círculo de amizades lhe apresentou o universo das drogas... Quando notaram, ela já estava sonhando com a próxima dose, e não com o futuro. Dizem que ela iniciou essa viagem como forma de, primeiro, chamar a atenção dos pais; depois, para atingi-los. Desculpas e motivos nunca faltam... Rapidamente, como uma bola de neve descendo uma encosta, a dependência química tomou posse de seu corpo e mente! As discussões familiares multiplicaram-se e ficaram intoleráveis. Faltou diálogo? Faltou amor?
Além dos diretamente envolvidos, dificilmente alguém poderá dizer como uma pessoa, que, aparentemente, tem tudo, pode sentir tanto vazio a ponto de deixar o vício e a alienação entrarem em sua vida, e aceitá-los como “muletas” para o que não pode, ou não quer, enfrentar. Assim, o imponderável assumiu o controle. Previsível era, somente, a próxima afronta... E ela veio sob a forma de gravidez na adolescência, logo perdida. Subitamente, houve um período de aparente tranqüilidade, como se as nuvens daquela tormenta dessem lugar a um céu de esperança. Seria a bonança ou só o olho do furacão?
Um namoro... Um pouco de diálogo... Projetos surgiram... A vontade de alçar vôo para o futuro parecia tomar o lugar da alienação, do escândalo e do delírio! Mas os “amigos” sempre estavam por perto, à espreita! Era uma noite qualquer quando ela chegou do namoro... Já eram altas horas, quando ela resolveu sair, para conversar com os “amigos” que ainda estavam na rua, órfãos de uma paternidade ausente. A mãe, preocupada, pediu para que o pai a chamasse de volta, para dormir. Assim, ele fez...
Ela retornou e, calmamente, beijou a mãe, pediu para que ela desse um beijo no pai, e, em silêncio resoluto, lançou-se pela janela do apartamento, num vôo que durou não mais que alguns segundos. Seus sonhos e pesadelos foram sepultados sem que nenhum de seus “amigos” estivessem presentes para pranteá-la. Provavelmente, estavam numa “viagem” que, um dia, talvez, também não tenha mais volta para eles. Nossos jovens e suas famílias continuam pagando caro, às vezes, com a própria vida, pela falta de diálogo e pela impunidade criminosa, conivente e lucrativa do narcotráfico! Enquanto esse “plano de vôo” continuar sendo aceito por nossa sociedade, muitas vidas continuarão sofrendo atentados, seqüestros e, no limite, perecendo nesses vôos de Ícaro, ou de kamikaze, teleguiados pelo vício e, quase sempre, só de ida...
O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é escritor, engenheiro, professor universitário e articulista