Que os veículos bicom-bustíveis são um sucesso, ninguém duvida. Prova disso é que só no primeiro semestre de 2005 eles responderam por 40% das vendas do mercado automotivo nacional e, nos próximos anos, especialistas prevêem que sua participação no segmento crescerá ainda mais. Entretanto, com o lançamento oficial da tecnologia no País, em 2003, uma polêmica também nasceu: os carros flexíveis consomem mais que os equipados com motores exclusivamente a álcool ou gasolina?
Para o engenheiro mecânico bauruense Marcos Serra Negra Camerini, que já trabalhou em montadoras, não há dúvidas. “Eles realmente gastam um pouco a mais, pois os motores flex não são otimizados para aproveitar a máxima eficiência da gasolina ou do álcool. Isso é fato”, garante. Camerini sustenta que a tecnologia flex tende a tornar os carros mais “beber-rões” por causa, principalmente, das taxas de compressão, um número que determina o quanto a mistura ar/combustível é comprimida dentro dos motores.
“Nos propulsores sem o sistema flexível, ela varia em função do combustível. Os a gasolina trabalham com taxas menores, em torno de 9/1 (transformação de nove volumes em um volume), e os a álcool maiores, cerca de 12/1 (12 volumes em um volume), em virtude das diferentes propriedades físico-químicas dos combustíveis”, explica.
Já no caso dos flexíveis, acrescenta o engenheiro, escolhe-se um valor intermediário para que os propulsores possam funcionar com álcool, gasolina ou qualquer proporção da mistura deles. “Dependendo do motor, essa taxa média varia, mas ela ficará abaixo do ideal para se aproveitar a máxima energia do álcool e acima do padrão para a gasolina, gerando perda de eficiência com ambos os combustíveis”, explica Camerini.
E como a taxa de compressão dos motores flexíveis do mercado nacional situa-se na faixa entre 10,5/1 e 12,5/1, complementa o engenheiro, todos gastarão ainda mais se o combustível utilizado for a gasolina. “Isso porque o propulsor tentará evitar a autodetonação, uma onda de choque que faz com que a gasolina comece a queimar pela alta taxa de compressão e não pela faísca causada pelas velas de ignição, como seria o correto. Para evitar esse fenômeno, o motor vai injetar uma mistura ar/combustível mais rica e o ponto de ignição será atrasado, tornando a queima menos eficiente e elevando o consumo”, frisa.
Apesar dos fatos apontados, Camerini enfatiza que o subaproveitamento dos combustíveis e o maior consumo dos flexíveis não chega a ser muito mais elevado que os motores exclusivamente a gasolina ou álcool. “É um gasto entre 10% e 15% a mais”, estima o engenheiro. E frisa: “Na prática, isso também não compromete as vantagens do álcool em relação à gasolina, pois com o primeiro o motor tem melhor desempenho e custo mais barato por quilômetro rodado.”
Assim, Camerini recomenda que, independente do modelo e marca, o dono de um carro bicombustível deve abastecer sempre com 100% de álcool enquanto o preço deste for menor ou igual a 70% do valor da gasolina. “Só que as pessoas têm de se conscientizar e se acostumar com o fato de que rodar com álcool significa economizar financeiramente mas, obrigatoriamente, ir mais vezes ao posto para abastecer. Suas características físico-químicas fazem com que ele, naturalmente, gaste até 30% a mais que a gasolina”, conclui o engenheiro.
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Satisfeitos x Insatisfeitos
O desempenho dos veículos bicom-bustíveis em relação ao consumo agrada a muitos motoristas, mas também não é unanimidade. Como é o caso da universitária bauruense Christiane Leite Nitsch, ex-proprietária de um carro a gasolina que adquiriu um modelo 1.0 flex há cerca de dois meses para economizar na hora de abastecer com álcool.
Ela afirma ter se decepcionado tanto com o gasto do veículo que já pensa em vendê-lo. “No começo até achei que ele fosse econômico, pois na primeira abastecida enchi o tanque com R$ 50,00 e rodei 15 dias. Mas nos abastecimentos posteriores o tanque passou a durar no máximo uma semana e até menos”, compara.
Nitsch garante ainda que não abusa do acelerador, não abandona a manutenção e utiliza o veículo normalmente, sem excessos, e que o automóvel de sua mãe, um bicombustível 1.6, gasta praticamente o mesmo que o seu “mil”. “E minha mãe não reclama do consumo do carro dela. Achei que, por ser um 1.0, o tanque do meu deveria durar bem mais”, analisa a universitária.
Já o engenheiro mecânico bauruense Marcos Roberto Bormio considera-se satisfeito com o consumo de seus dois carros flexíveis. Ele afirma que atualmente só roda no álcool e que sua aquisição foi um bom investimento. “Essa diferença maior de consumo dos flex era algo já esperado por conta das características técnicas da tecnologia. No entanto, não é algo absurdo e o gasto com combustível está dentro do que eu esperava”, frisa.
Bormio também comemora o fato da liberdade da escolha do combustível proporcionada pelos flex. “Dia desses viajei para Santa Catarina e, como lá o álcool era muito mais caro, optei pela gasolina. Essa é uma de suas grandes vantagens”, avalia.
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As montadoras
De maneira geral, as montadoras consultadas pelo AutoMercado & Cia - Fiat, General Motors (GM), Volkswagen, Ford e Renault - sobre o gasto dos bicom-bustíveis alegaram que os sistemas flexíveis utilizados são concebidos para obter o melhor aproveitamento possível em termos de consumo, independentemente do combustível ou mistura utilizados. Todas também enfatizaram o fato do consumo estar diretamente ligado à forma de condução do veículo e sua correta manutenção.
Além desses fatos, a GM lembrou que existe diferença de consumo de combustível em km/l entre o álcool e a gasolina, em função das características dos próprios combustíveis, e que o primeiro ainda continua a ser vantajoso pelo custo do quilômetro rodado em função do menor preço por litro.
Já a Ford ressaltou que seu sistema flex, no motor Ford RoCam, opera com taxa de compressão 12,3/1, que é otimizada para álcool mas que permite ao mesmo tempo ganho de desempenho e de consumo em relação ao motor gasolina convencional. “Isto foi possível devido ao desenvolvimento de um novo motor 1.6LFlex, com controle eletrônico e sensor de detonação que monitora e otimiza o funcionamento do motor com qualquer combustível”, informou a assessoria de imprensa da montadora.
A Ford sustentou ainda que as melhores marcas de consumo medidas em quilômetros por litro serão obtidas com a utilização de gasolina. “No entanto, tendo em vista o menor custo por litro, a utilização de álcool se traduz em um menor custo operacional, uma vez que, embora com consumo um pouco elevado, o custo por quilômetro rodado com álcool é mais vantajoso”, disse a assessoria. E acrescentou: “Recomenda-se evitar acelerações bruscas, utilizar o motor na faixa de 1200 a 1800 rpm e sempre abaixo de 50% de curso de pedal do acelerador. E a manutenção deve seguir o especificado no manual do proprietário.”
Além de destacar a importância da manutenção e as diferenças de consumo causadas pelas características químicas, a Fiat ressaltou que seu sistema flex consegue identificar qual combustível ou mistura está sendo queimada e fazer com que a quantidade de combustível e o ponto de ignição (responsável pelo momento da centelha) sejam as ideais. Os mesmos argumentos também foram utilizados por Renault e Volkswagen.