07 de julho de 2026
Ser

Potência máxima

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Confiantes e persuasivos, eles são sociáveis, ansiosos e agem com a mesma energia e dinamismo de seus pensamentos. Na maioria das vezes se irritam com pequenos imprevistos, mas são bem aceitos pelo grupo e costumam viver sempre “a mil por hora” ou “ligados na tomada”.

Quem conhece alguém com perfil parecido pode estar convivendo com um hipomaníaco, explica o psiquiatra Onildo da Silva Melo. Segundo ele, a hipomania é uma variante suave do transtorno bipolar, no qual o paciente alterna períodos de euforia e depressão.

A diferença é que na fase eufórica do transtorno bipolar a pessoa perde a noção da realidade, fica muito expansiva e toma atitudes impulsivas; alguma vezes pode até ser internada. Na hipomania, a euforia se manifesta de forma diferente: ela é consciente e constante; não há distorção grave da realidade e, de modo geral, pode levar o portador a atitudes produtivas.

“Na euforia bipolar, a pessoa está dentro de uma patologia efetiva. Na hipomania, ela pode até vivenciá-la de forma crônica, mas normalmente são pessoas que estão de bem com a vida o tempo todo, caso de um apresentador que está rindo, conversando e interagindo com a platéia. A hipomania está ligada ao bom humor”, diz Melo, ressaltando que a alteração atinge cerca de 1% dos pacientes bipolares.

Mas esse número pode aumentar, haja vista que é cada vez maior a cobrança por pessoas produtivas e dinâmicas na vida social e no mercado de trabalho, aponta a psicóloga Maria Lúcia Biem.

“Hoje, nesse mundo moderno e competitivo, muitas pessoas acabam sendo ‘obrigadas’ a desenvolver uma certa mania devido à necessidade de executar várias atividades. Às vezes elas têm três empregos, por exemplo, e muitas vezes não têm físico e estado psicológico para isso”, diz.

Agitação

O analista de sistemas Daniel de Camargo Talon, 26 anos, tem diversos traços de hipomania. Dividindo uma república com amigos em Bauru, ele trabalha cerca de oito a nove horas por dia, de segunda a sexta-feira. Aos finais de semana, atua como representante comercial de uma empresa que vende produtos para emagrecer.

Sua agenda não pára por aí: semanalmente, faz pós-graduação em gestão de pessoas, curso de inglês, aulas de body combat e musculação em uma academia da cidade e, além de tudo isso, encontra tempo para namorar, sair com os amigos, ver a família - que mora em Duartina - e freqüentar uma igreja. Também cuida da casa e da própria alimentação. Tudo isso mantendo energia e bom humor.

“Nunca gostei dessa idéia de ficar parado ou acomodado, isso me pertuba um pouco porque sou meio acelerado. Minha cabeça está sempre pensando em como fazer para melhorar algo que estou desempenhando ou então o que vou fazer depois que terminar uma atividade. Por exemplo, já estou pensando que pós vou estudar depois que acabar a atual ou que curso de línguas vou fazer depois que terminar o inglês”, diz.

Para Tolon, o excesso de atividades é uma conseqüência do mundo moderno, no qual estamos inseridos. “Conheço muitas pessoas parecidas comigo e até algumas mais aceleradas do que eu. Hoje, devido à exigência, a sociedade já espera uma ‘superpessoa’, que faz várias coisas bem feitas”, diz. “Inclusive acho que muitas mulheres hoje são hipomaníacas, porque têm de cuidar dos filhos, da casa e do trabalho”, complementa.

A professora Luiza*, 38 anos, sabe bem o que é isso. Mãe de uma menina de 6 anos, ela divide seu tempo entre as aulas ministradas de segunda a sexta-feira em uma escola de ensino fundamental e o curso de pedagogia freqüentado no período da noite. Aos finais de semana, faz diversos cursos de especialização na área.

“Não consigo ficar sem fazer cursos. Sempre estou estudando. Esse final de semana, por exemplo, não tive nenhuma atividade, então fui para o computador procurar alguma ou pesquisar o que vou ensinar para os alunos”, conta.

Comunicativa, Luiza tem facilidades para fazer amizades e está sempre pronta para levar a filha para passear. Além disso, aos sábados e domingos, costuma sair para se divertir com amigas e faz questão de preparar o almoço de domingo para a família. “Tenho muito pique para cozinhar: faço lasanha, farofa, torta e maionese”, conta.

Outra especialidade da professora é organizar festas e eventos. “Adoro fazer surpresas para amigos e familiares, mexer com lembranças e emoções”, diz. A exemplo de diversos hipomaníacos, Luiza conta que é alto-astral e costuma sentir-se sempre bem. “Quando estou parada me sinto meio inútil. Gosto de fazer várias coisas e isso faz bem para meu ego”, diz.

* Nome fictício para preservar a identidade da personagem