11 de julho de 2026
Economia & Negócios

Economia global já exige novo FMI

Da Redação
| Tempo de leitura: 4 min

A arquitetura atual das finanças globais reforça as desigualdades entre os países e precisa ser reformada para conter a instabilidade econômica crescente. O Fundo Monetário Internacional (FMI), apesar de criado em 1944 a fim de manter as condições para o crescimento sustentável da economia, já não desempenha suas funções com a eficiência esperada e deve ser remodelado para enfrentar a conjuntura contemporânea.

Estas perspectivas, centrais no cenário de revisão do papel do FMI hoje em evidência, são analisadas pelo jornalista Danilo Rothberg, professor da Universidade do Sagrado Coração (USC). Ele acaba de lançar, pela Editora da Universidade Estadual Paulista (Edunesp), o livro “O FMI sob ataque: recessão global e desigualdade entre as nações”.

O estudo é fruto da tese de doutorado em sociologia que Rothberg apresentou à Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara, com a orientação de Maria Teresa Miceli Kerbauy. A pesquisa consumiu quatro anos, durante os quais o autor identificou as principais maneiras com que três veículos de comunicação de alcance mundial analisaram a atuação do FMI em episódios recentes de distúrbios econômicos internacionais.

Foram investigados jornais de diferentes países, o que permitiu verificar como nações de diferentes estaturas representam seus próprios interesses e consideram as pretensões de outros governos. Folha de S. Paulo, Financial Times (edição inglesa) e Wall Street Journal (edição norte-americana) foram as fontes da investigação, que recorreu também a diversos autores de economia e sociologia para reconstruir o que Rothberg chama de “quadro relacional de poder”, isto é, o conjunto de relações objetivas dentro das quais deve ser considerada a atuação de um órgão multilateral como o FMI.

A pesquisa se insere, desta forma, em uma linha de estudos que toma o jornalismo - especialmente de opinião - como origem de significados para compreender questões importantes da dinâmica da sociedade atual.

Mais de 900 artigos, editoriais e comentários sobre as crises asiática (1997), russa (1998) e sobre a desvalorização cambial promovida pelo governo brasileiro em janeiro de 1999 foram estudados com base nesta ótica. Um trabalho de depuração proporcionou a síntese de idéias que sustenta, afinal, o sentido do título do livro: a sobrevivência do FMI, em um contexto muito diferente daquele da sua criação, apóia-se em um precário arranjo, e os ataques mais consistentes vêm não de setores marginais de oposição, mas sim de correntes de influência global, o que sinaliza a urgência com que se coloca a exigência de reestruturar a instituição.

Como pano de fundo dos acontecimentos, está a globalização financeira, que precisa, segundo Rothberg, ser considerada de forma específica. “São episódios que devem ser entendidos como sinais de crise do capitalismo, marcada pela hipertrofia do sistema financeiro mundial e pela preponderância das finanças sobre a economia real na definição das prioridades dos investimentos em âmbito planetário”, aponta.

“Isto quer dizer que é anômala uma situação na qual as aplicações financeiras rendem mais do que investir na economia real, na produção de bens e serviços”, explica. “O contexto favorece setores rentistas, que vivem das diferenças de arbitragem entre ativos financeiros e dos juros pagos pelos devedores. Estes setores passam a regular o custo do dinheiro para a economia real e estão prontos para fechar companhias inteiras se isso der mais lucro para os acionistas.”

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Mídia internacional

Um ponto em comum entre os jornais analisados está ligado ao suposto sectarismo do FMI, diz o professor Danilo Rothberg, autor do livro “O FMI sob ataque: recessão global e desigualdade entre as nações”. “Segundo uma perspectiva presente nos três veículos, a atuação do Fundo privilegia essencialmente os interesses dos países que são seus maiores cotistas, ou seja, Estados Unidos, Alemanha, Japão, França e Reino Unido, entre as nações emergentes que recebem seu dinheiro”, comenta.

“No entanto, os veículos admitem que este compromisso é encoberto pela imagem de um árbitro aparentemente neutro, fundado sobre a arquitetura de uma instituição multilateral composta por 182 países.” A partir de documentos do próprio FMI, o livro aponta que o Brasil é o sétimo país entre os atuais membros do fundo que mais utilizou recursos da instituição entre 1947 e julho de 1998.

O país emprestou no período mais de US$ 645 bilhões. Daí sua centralidade entre os acontecimentos cobertos pela pesquisa. “Justamente no Brasil tem muito apelo e popularidade a percepção de que o FMI age para preservar os interesses dos países ricos entre as nações emergentes”, comenta o autor.

“Curiosamente, essa é uma concepção compartilhada pelo próprio Wall Street Journal, jornal que expressa os interesses dos financistas sediados em Nova York, em tese, e reconhece que o FMI age para defender tais posições”.

O livro é dividido em nove capítulos, que partem da retomada das razões que levaram ao surgimento do FMI e à transformação radical de seu papel na década de 1970.