09 de julho de 2026
Bairros

Saúde vai pôr coleiras em cães e gatos

Lilian Venturini
| Tempo de leitura: 4 min

A partir do próximo ano, cães e gatos da Bauru vão ter algo em comum. Projeto do Departamento de Saúde Coletiva (DSC) pretende colocar coleiras em 50 mil animais para registrá-los e possibilitar o controle das populações canina e felina. A medida faria parte de um pacote de ações para incentivar a posse responsável e o controle reprodutivo dos animais.

Estimativas recentes do órgão, ligado à Secretaria Municipal da Saúde, afirmam que a cidade abriga 46.070 cães e 3.369 gatos na área urbana. Se os números estiverem corretos, praticamente todos eles serão atendidos pelo projeto Controle Animal do DSC, ainda sem data exata para começar. De acordo com o Diário Oficial do último sábado, a prefeitura abriu licitação para comprar 50 mil coleiras e plaquetas de identificação, também sem custos definidos até ontem. Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, o processo de compra pode levar cerca de três meses e, por isso, o início previsto para o projeto é o início de 2006.

A intenção com a medida é registrar os animais com nome do proprietário e endereço, características gerais do animal e também controlar a população. Além deles, o principal seria estimular a posse responsável, ou seja, orientar os donos a oferecer condições básicas de alimentação, higiene e saúde - vacinação correta, por exemplo - a cães e gatos.

Como conseqüência destas ações, o DSC pretende alertar para a necessidade de limpeza de terrenos e quintais, o que evitaria a proliferação do mosquito palha, transmissor da leishmaniose. A doença, sem cura no animal e que pode causar a morte em humanos, contabiliza 17 casos de leishmaniose visceral americana em humanos e duas mortes neste ano. No ano passado foram 29 casos e três mortes.

De acordo com a assessoria, porém, a forma e os critérios de distribuição serão definidas somente após um estudo a ser realizado em conjunto pelo DSC e uma consultoria do ramo - ainda não contratada. Somente depois dele serão estabelecidos áreas prioritárias e quais animais serão atendidos pelo projeto.

A assessoria adiantou que o DSC atuaria, inicialmente, em regiões já afetadas pela leishmaniose. As demais ações que integrariam o projeto Controlo Animal teriam a participação de outros órgãos da administração municipal, mas o diretor do DSC, Mário Ramos, não antecipou quais seriam elas ou os demais participantes.

Atrasado

Para representantes de órgãos de proteção ambiental e animal da cidade, a compra das coleiras é uma iniciativa boa, mas está atrasada se o intuito for também combater a leishmaniose. Medidas como as anunciadas pelo DSC deveriam ter começado há pelo menos seis anos, quando os primeiros casos de leishmaniose tegumentar - causa feridas na pele e mucosas - surgiram em Bauru.

“Os profissionais destas áreas tinham que ter oferecido esta opções (e o trabalho pela posse responsável) muito antes”, afirma Ângela Heiffig da Silva, presidente da União Internacional Protetora dos Animais (Uipa).

Ela lembra ainda que, em 1999, o órgão sugeriu ao município o uso da coleira com repelente ao mosquito palha, medida que teria tido bons resultados na cidade de Andradina. “Mas a idéia foi desconsiderada porque disseram que isso só iria enriquecer laboratório”, diz. Desta vez, segundo a assessoria da prefeitura, o motivo da coleira não ser repelente foi o aumento dos custos que causaria.

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Ação isolada

Apesar de considerar o uso da coleira importante para o incentivo da posse responsável e para o controle da população destes animais, a presidente da organização não-governamental de proteção ambiental e animal Mountrait, Damair Pereira de Almeida, ressalta que o objeto sozinho terá poucos resultados. “Já é um começo, mas não é solução. Nada terá efeito se não resolver o problema do mosquito palha. Tem que se pensar também na limpeza (das ruas e quintais) e fazer trabalho de conscientização com a população”, considera.

A presidente da Uipa acredita ainda que a coleira seria facilmente perdida, o que poderia prejudicar o projeto. “Em regiões mais pobres seria pouco eficiente. Acho que o melhor seria colocar chips (subcutâneos) nos animais, como foi feito em São Paulo; é uma medida mais segura”, sugere.

De acordo com o levantamento do DSC, 298 cachorros foram sacrificados na cidade até junho deste ano. Em 2004, foram realizadas 659 eutanásias. Os primeiros casos de leishmaniose visceral em humanos foram registrados em 2003.