Certa vez, um homem que possuía uma vontade imensa de se aproximar mais de Deus teve a idéia de subir no alto de uma montanha. Ele acreditava que encontraria Deus se estivesse sozinho no topo da mais alta montanha da região. E assim, não sendo suicida, comprou equipamento necessário e passou um bom tempo treinando alpinismo. Gastou quase três anos nessa empreitada. Quando finalmente julgou-se capaz de subir a tal montanha sem sofrer riscos, despediu-se de sua família e amigos e começou sua escalada.
Passou um pouco de fome, um tanto de frio e finalmente conseguiu chegar ao alto da maior montanha da região. Lá chegando, olhou deslumbrado não para o alto e sim para baixo, onde se vislumbrava com plenitude a floresta, a qual ele tinha atravessado sem ver sua grandeza e beleza. Olhou para mais além, e viu sua cidade. Percebeu nitidamente o tamanho de sua pobre periferia e as fábricas que poluíam o pequeno rio. Imediatamente, lembrou-se dos diversos problemas urbanos que, para ele, sempre foram “normais”. Sentou-se em uma pedra e começou a chorar. Afinal, chegara ele à conclusão de que o seu encontro com Deus não era no isolamento da montanha, mas justamente na convivência com sua comunidade.
Todas as religiões prometem a salvação. Porém, não somente em um sentido religioso, mas também filosófico, encontramos a salvação como objetivo do ser humano. Para os filósofos gregos, a palavra salvação (“sotería”), ou salvar-se (“sózein”), possuía significados bem concretos. Em primeiro lugar, “sózein” era o mesmo que “livrar-se de um perigo”. Aqui, salvação possui a referência de algo negativo que pode vir a acontecer, salvar-se de algo que pode prejudicar. O verbo era empregado no sentido de manter em torno de algo uma proteção que lhe permitirá se conservar no estado em que está. Esta proteção não era somente no sentido material, mas também moral, espiritual, ou seja, salvar-se era empregado quando se queria conservar e proteger algum valor ético como o pudor, a honra ou, eventualmente, a lembrança.
Porém, para os gregos, salvação significava muito mais que simplesmente proteção. A palavra “sotería” era empregada não somente diante de uma ameaça, mas principalmente na perspectiva de algo positivo. “Sózein” significava, para os filósofos gregos, “fazer o bem”. A salvação era o movimento de criar e cultivar o bem-estar, desenvolver o bom estado de alguma coisa, alguém ou de uma coletividade.
Plutarco, por exemplo, afirma que, quando sofremos um luto, não devemos nos entregar, nos fechar na solidão e no silêncio, negligenciar todas as nossas ocupações. É preciso, diz ele, continuar a assegurar a saúde e a salvação (“sotería”) dos que vivem conosco. Quem se salva é quem está em um estado de alerta, de resistência, de domínio e soberania sobre si, que lhe permite repelir todos os ataques e todos os assaltos. Mas, quem se salva é principalmente quem vai em busca da felicidade, da tranqüilidade, da serenidade, de melhor qualidade de vida. Portanto, o termo salvação se remete à própria vida.
A salvação não faz imediatamente referência à morte ou imortalidade. Salvar-se é uma atitude que se desdobra ao longo de toda a vida e cujo único operador é o próprio sujeito. Se a salvação conduz a uma meta, esta não se encontra no pós-morte, mas no aqui e agora. “Considere-se responsável por um padrão superior ao que todos os outros esperam de você” (Henry Ward Beecher).
Neste sentido, para os gregos a salvação sempre abrangia duas outras grandes expressões: a “ataraxia” e a “autarcia”. A “ataraxia” é a ausência de perturbação, domínio de si que faz com que nada nos perturbe. Salvação é, portanto, nos tornarmos inacessíveis aos infortúnios, às perturbações, a tudo o que pode ser induzido na alma pelos acidentes, pelos acontecimentos exteriores. “Não serve de nada atormentarmo-nos com uma coisa depois de a ter feito, a não ser para torná-la pior” (Bonaventure des Périers).
A “autarcia” significava a auto-suficiência que faz com que nada mais se necessite senão a si mesmo. Em outras palavras, salvar-se era, acima de tudo, uma atividade permanente do sujeito sobre si mesmo. A salvação não é um fenômeno que “cai do céu”, mas uma atividade que deve ser desenvolvida pelo ser humano para uma verdadeira autonomia e tranqüilidade diante de todos os fatos circunstanciais da vida, sejam eles alegres ou tristes. Por fim, a salvação do sujeito estava intimamente ligada à salvação da “polis”, ou seja, da coletividade.
Para Platão, salvando os outros, simultaneamente, se salvava a si mesmo. A verdadeira salvação significa o desenvolvimento de um espaço de vida para todos os seres humanos. Neste movimento concreto de bem-estar de todos que vivenciamos verdadeiramente a salvação religiosa, ou seja, o encontro com Deus. “Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons, mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis” (Bertold Brecht).