09 de julho de 2026
Geral

Uso de agrotóxico preocupa e deixa consumidores indefesos

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Não adianta deixar frutas, legumes e verduras de molho em água com vinagre ou bicarbonato de sódio. As bactérias podem desaparecer, mas o agrotóxico, não. Também é inútil descascar maçã, por exemplo, para evitar a ingestão de defensivos agrícolas. O produto é absorvido pelo alimento. Se a informação já é incômoda, torna-se assustadora diante da constatação do uso de agrotóxicos fora do padrão permitido.

Morango, alface, batata, cenoura, laranja, maçã, mamão e tomate estão nesta situação, conforme estudo da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa). O órgão, em conjunto com centros de vigilância sanitária de 12 Estados e laboratórios especializados no assunto, desde 2001 analisa amostras de nove tipos de alimentos.

Foram escolhidos os mais suscetíveis ao agrotóxico, sendo que 4.345 amostras foram analisadas até 17 de dezembro de 2004. As irregularidades foram classificadas em dois tipos. Em 80% dos casos, o agrotóxico encontrado não é permitido para o produto.

“Às vezes um amigo usou (o defensivo agrícola) e ele (produtor) decide usar também. Mas não é indicado. Alguns alimentos têm excesso porque o agrotóxico é aplicado e o produtor não respeita o tempo de carência. O veneno tem um tempo para ser metabolizado. Tem também descontrole na aplicação. Em alguns casos, falta cuidado na maneira de diluir o agrotóxico”, diz a farmacêutica e bioquímica Eliane Simionato.

Ela é responsável pelo laboratório de análises de alimentos da Fundação Veritas, mestre em ciência dos alimentos e doutora em química analítica. De acordo com Simionato, ao lavar as frutas, legumes e verduras, os consumidores conseguem apenas tirar o excesso do excesso. Ela ainda destaca que alimentos com agrotóxicos além do permitido não têm aparência diversificada. Não são maiores ou mais robustos, por exemplo.

“A única segurança é comprar produtos orgânicos, com certificado”, recomenda. A prática é adotada por Eneida Sampieri, que há pelo menos 20 anos peregrina em busca de produtos livres de defensivos. “O difícil é encontrar. Não adianta só falar que tem certificado e não tem agrotóxico (alguns produtores aplicam defensivos tão prejudiciais quanto)”, afirma.

Eneida já cultivou horta em casa. Atualmente, é cliente da loja mantida pela Associação de Produtores Orgânicos de Bauru e Região (Aprocop), cujos produtos são certificados pelo Instituto Biodinâmico (IBD).

“Somos auditados anualmente. Temos diretrizes e normas de produção. O preço normalmente é um pouco mais alto, mas tem público. Mas vários produtos nossos são mais baratos que os convencionais. O rendimento e o valor nutricional são maiores”, conclui o produtor e membro da associação Marcelo de Rezende Barbosa.

Tecnologia

Para a titular da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento, Maria Eugênia Gracia, Bauru dispõe de tecnologia para garantir produção saudável de culturas orgânicas e tradicionais. No entanto, os pequenos e médios produtores estão carentes de assistência técnica.

A situação já foi pior. No ano passado, a pasta dispunha de apenas dois técnicos. Atualmente, seis deles atendem cerca de 500 propriedades. “Pada dar assistência real, são 20 produtores por técnico. Isso porque a nossa secretaria é privilegiada (em relação a outras dos municípios vizinhos)”, afirma Gracia.

Na opinião dela, assistência técnica é responsabilidade de todas as esferas (municipal, estadual e federal). “A situação do Estado também é precária. O plantio alternativo é interessante para a agricultura familiar, mas falta orientação. O custo da produção fica alto porque a perda é grande. No sistema tradicional, a produção é maior e o custo menor. Mas a monocultura está mais sujeita a pragas e doenças”, conclui.

Contaminação

Fora do padrão - Morango, alface, batata, cenoura, laranja, maçã, mamão e tomate

Análise da Anvisa - 4.345 amostras coletadas em grandes supermercados 92 tipos de agrotóxicos pesquisados

Irregularidades - Limite de tolerância ao agrotóxico acima do aceitável; agrotóxico não permitido para o alimento

O que acontece 1 - Maioria do agrotóxico é atraída para a membrana da célula 2 - Produto gruda nas membranas e desestrutura suas funções 3 - Membrana não suporta a ação do produto

Piores conseqüências: Câncer e mal de Parkinson Fonte: Agência Estado