08 de julho de 2026
Nacional

Um virgem no cinema

Por Folhapress | Com Redação
| Tempo de leitura: 2 min

A perda da virgindade, cujo símbolo de passagem para a vida adulta foi tão bem ilustrado em “A Primeira Noite de um Homem” (67), de Mike Nichols, é agora um meio de inclusão, como mostra “O Virgem de 40 Anos”, de Judd Apatow. Se no filme de Nichols tínhamos, então, um pós-adolescente (Dustin Hoffman) tomando ciência dos problemas adultos a partir de sua iniciação sexual, na comédia de Apatow esta descoberta já foi superada e o problema do quarentão Andy Stitzer (Steve Carell) é outro, a solidão.

Invisível até para seus colegas de trabalho, que o acham um “loser”, ele, em franca aproximação a Michael Jackson, construiu sua “Neverland” em casa, lotada de brinquedos, videogames e outras memorabilias. Até que descobrem sua virgindade, o que é uma aberração para todos, que darão toda a logística para este homem. Em meio a missões um tanto frustradas, ele assume namoro, é promovido e pensa em vender suas tranqueiras para abrir um negócio próprio.

Ou seja, a inclusão de Andy é também uma inclusão social. E a perda da virgindade, aqui, mais do que representar a maturidade, é o contraponto ao que o sexo representava nas comédias de John Landis, por exemplo: em “Clube dos Cafajestes” (78), transar era transgressão, negação às normas de uma sociedade puritana. Há pouco do cinema de Landis em “O Virgem de 40 Anos”, mas Andy não deixa de ser um daqueles garotos das comédias dos anos 80 que tentavam transar a todo custo e perdiam o engate.

A fonte, agora, são os irmãos Farrelly, naquilo que seu cinema já teve de mais escatológico, o que funciona no filme, que não tem pudor em juntar na montagem ereções, jatos de urina no rosto e vaginas e pênis artificiais. São dados visuais num humor que se faz pelo verbo, nas tiradas cômicas executadas pelo bom elenco.

Enquanto outros atores penam em papéis secundários e quase-figurações antes de terem uma chance, Carell, protagonista de “O Virgem”, deu sua volta em pouco tempo. Com participações nas comédias “Todo Poderoso” e “O Âncora”, sua carreira ganhou destaque e sua cara de bobo ainda vai lhe render o papel principal em uma versão do seriado “Agente 86” para os cinemas.

Sem dúvida, o filme é de Carell e de suas expressões “não entendo o que está acontecendo ao meu redor”. Mas nem todo seu carisma é proveitoso quando o material do roteiro não avança. As cenas mais engraçadas são aquelas que mostram Andy em sua “iniciação”. No entanto, o humor descamba quando o filme leva a sério demais o lado dramático e foca a continuidade da trama nele. Outro grande problema está num filmar que faz certo sensacionalismo com o sexo, jamais o naturalizando quando fora da prisão matrimonial. Um olhar de virgem, por assim dizer.