08 de julho de 2026
Geral

Escola pública ideal não é um sonho

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 6 min

A escola estadual Antônio Guedes de Azevedo é como os alunos aprendem nas aulas de gêneros literários: um conto de fadas. A Antônio Guedes, como é chamada a escola do Jardim Pagani, é reconhecida por ser uma das melhores da rede estadual em Bauru. Nela, estudam 709 alunos da 2.ª a 6.ª série e trabalham 40 professores.

Os muros limpos, sem nenhum grafite, contrastam com a realidade da maioria das escolas públicas. O jardim gramado, as salas impecavelmente limpas, o terreno arborizado. Nada lembra o que costuma-se encontrar em quase todos os colégios públicos hoje em dia. É o que constatou a reportagem do Jornal da Cidade, que passou a tarde de ontem na escola, acompanhando a turma da 6.ª série para analisar o ensino por ocasião do Dia dos Professores, que é comemorado hoje.

Na escola, indicada pela Diretoria de Ensino, tudo funciona bem. A comunidade, segundo a vice-diretora Geni Aparecida de Freitas Pauleto, é muito presente. Ela conta que, no ano que vem, será inaugurada uma sala de informática, construída com dinheiro arrecadado com as festas feitas em parceria com os moradores e pais de alunos.

Se não fossem pelos cabelos espetados e os piercings dos alunos, que ainda têm o costume de levantar-se quando a diretora entra na sala, poderia se jurar que o tempo havia voltado. O comportamento, comum em décadas atrás, hoje é raridade.

Apesar do rigor da disciplina, ontem a professora de português Andréa Maria Biondo começou sua aula dividindo os alunos em grupos. Era dia de laboratório de redação, como toda sexta-feira. As crianças, na verdade pré-adolescentes, estão aprendendo os gêneros literários. Para cada pergunta feita por Andréa, a resposta dos alunos era imediata, o que surpreendeu a repórter.

Distribuída a tarefa, outra surpresa: música ambiente. O aparelho de som, assim como a televisão, o dvd, o videokê e o aparelho de som, ficam no armário na própria sala de aula.

Enquanto ouvem música em baixo volume, os alunos, em grupos, elaboram seus textos. O CD, aliás, foi um presente dado pela coordenação para cada um dos professores. Personalizado, cada disco vinha com uma dedicatória, o nome do professor e uma seleção de músicas que os próprios professores escolheram, sem saber. “Falamos que era uma pesquisa”, esclarece a vice-diretora da escola, mostrando o cuidado com o corpo docente.

Os grupos estavam tão entretidos que nem perceberam o sinal para o intervalo. Muitos alunos permaneceram na sala, pedindo orientação à professora. Assim que todos deixaram a sala, a porta, cheia de mosaicos feitos por um antigo aluno, é trancada com chaves. A realidade que contrasta com o clima da escola também obrigou as salas a terem grades nas suas janelas. No Antônio Guedes, pelo menos, elas ficam escondidas atrás de cortinas brancas rendadas.

E os alunos?

A relação da professora Andréa com seus alunos é quase fraternal. Os estudantes entrevistados pela reportagem foram unânimes em exaltar o astral da “dona Andréa”, como alguns a chamam.

“Ela é muito dinâmica, a aula fica bem gostosa”, elogia Débora Regina dos Santos, 13 anos, que está no Antônio Guedes desde a 1.ª série.

Para Paulo Henrique Maldonado Bernardo, destaca as aulas de Andréa. “É bem legal, tem música, mais vida”, observa. “Semana passada, fizemos uma dinâmica que me emocionou muito”, diz Raquel Franqueira, 12 anos, ao se lembrar da aula que mais gostou.

Apesar da interação com as classes, Andréa não perde a autoridade em sala. “Ela sempre cobra as coisas bem certas, os prazos”, observa Júlia dos Reis Tognozzi. “Temos que ser responsáveis”, concorda Washington Rodrigo Nascimento, 12 anos.

Mayara Lima dos Santos, 12 anos, compara o colégio com o antigo. “Aqui é bem diferente, os professores são respeitados. Lá, tinha muita briga”.

A colega de Mayra, Amanda Amarins Belo, chegou este ano ao Antônio Guedes e logo notou a diferença. ”No colégio antigo, tinha muita indisciplina. Os alunos faziam o que queriam. Aqui é tudo organizado”, revela.

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Apeoesp

A professora Andréa e a escola estadual Antônio Guedes de Azevedo, no Jardim Pagani, podem ser consideradas exceções no cenário de Bauru, que tem 53 unidades de ensino estaduais e mais de 48 mil alunos. É o que afirma Suzi da Silva, diretora do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).

Ela lembra que nem todos os alunos encontram o mesmo incentivo para ir às aulas. Ao contrário, afirma. “Alunos que estão defasados no conteúdo, que perdem o interesse pelas aulas, acabam aumentando a indisciplina, gerando a insatisfação dos professores. “Muitos colegas estão afastados das aulas por motivos de saúde causados pelo estresse”, observa Suzi.

“E o que comemorar no Dia dos Professores? A gente comemora o idealismo, a luta”, lamenta a diretora do sindicato. Em agosto, o governo abriu concurso para a contratação de professores de educação básica 1. O salário é de R$ 1.000,65, partindo-se do valor inicial de R$ 708,95 (para jornada inicial de 24 horas).

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Caso de amor

A professora Andréa Maria Biondo, 35 anos, conta que sempre soube que atuaria no magistério. Desde pequena, pegava as velhas cadernetas da tia, que também lecionava, para brincar com seus amigos. Dos professores de infância, ela lembra com carinho da primeira série, na escola Mercedes Paes Bueno, onde estudou até o ginásio.

A formação em letras foi realizada na Universidade do Sagrado Coração (USC). Sempre lembrando da vocação, Andréa procura desvencilhar sua profissão do salário pago pelo governo. Após dez anos de magistério, ela planeja cursar mestrado em administração escolar e seguir a carreira de dirigente educacional. Ela avalia o sistema de educação. Veja na entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - Você acredita no comprometimento do professor?

Andréa Maria Biondo - Sinto hoje que muitos não escolheram essa carreira e que estão nela por acaso. Eu ouço professores que não vestem a camisa numa festa, por exemplo. Trabalha aquele horário e acabou. Hoje, é preciso ter equilíbrio e sinto que muitos professores não têm.

JC – E o prejuízo para a educação?

Andréa - Eu estou aqui com um grupo, uma equipe de pessoas de família, estruturadas, que escolheram essa carreira. Os professores que não são professores, acho que são prejuízo (para educação). Não estou falando de partidos, mas vejo nesse governo uma abertura positiva quanto à capacitação. Não só o salário. Acho que a questão salarial empobrece. Eu não quero ligar a minha carreira ao salário. Eu acho que esta é a decisão da escolha da profissão. Não é sacerdócio. É escolha. Você tem que se identificar com ela.

JC – Mas muitos colegas seus não têm essa estrutura. As escolas são constantemente alvo de violência. A diferença está só na localização, no bairro? Como se constrói um ambiente desses?

Andréa - Qual é a diferença? Os profissionais. A direção, a coordenação as serventes, a inspetora, a secretária, a merendeira. São todos profissionais. É o coletivo forte, é vestir a camisa. E o respeito que isso traz.

JC - E para o futuro?

Andréa - Eu estou estudando sozinha através de uma bibliografia. Preciso desse momento. Vou tentar ano que vem o mestrado em Araraquara ou Marília na área de administração escolar.