São Paulo - Um estudante de jornalismo foi assassinado ontem, com uma facada no peito, dentro da Universidade de São Paulo (USP), o maior centro universitário público do País. O autor do crime era um amigo com quem ele dividia a casa, uma república estudantil no Butantã, zona oeste da Capital.
Rafael Azevedo Fortes Alves foi esfaqueado por Fábio Le Senechal Nanni, também de 21 anos, pouco depois das 9h, dentro da redação da Rádio USP, onde a vítima trabalhava como estagiário havia um ano. Ele foi levado para o Hospital Universitário, mas não resistiu ao ferimento e chegou morto.
O crime, que chocou a comunidade uspiana e levou amigos dos dois a uma vigília de choro e abraços no gramado da faculdade durante todo o dia, ainda intriga: o que levou Fábio a matar Rafael? Segundo o agressor contou extra-oficialmente à polícia, ele foi ao local apenas para conversar com o amigo e resolver desavenças - sem mencionar quais eram.
No depoimento formal, já orientado por dois advogados, disse que se manteria em silêncio até ser ouvido pela Justiça. Estudantes da faculdade contam que Fábio já utilizou antidepressivos e era uma pessoa tranqüila, mas extremamente obsessiva por sua amizade com Rafael. Dizem que ele nunca havia manifestado alguma atitude agressiva.
Amigos havia dois anos, desde que entraram na USP, Fábio e Rafael brigaram na madrugada de ontem, por volta das 3h, em uma festa na Escola de Comunicações e Artes, onde fica a faculdade de jornalismo. Rafael foi dormir na casa de uma amiga. Fábio passou a noite acordado na república.
Ontem de manhã, Fábio entrou na redação da rádio às 9h10 à procura de Rafael, que estava em horário de trabalho. Eles conversaram por dez minutos num tom de voz baixo. Quase sussurravam. Em certo momento, Rafael levantou-se para afixar um papel no mural. Foi detido por Fábio com um tapinha no ombro.
Segundos depois, com uma faca de cozinha, desferiu o golpe mortal. Não houve gritos, socos nem empurrões. Os estudantes e funcionários da rádio só notaram que algo ocorrera quando Rafael, já cambaleante e com a mão no peito para estancar o sangue, disse: “Ele me furou! Ele me furou!”. Nesse momento, Fábio deixava a redação às pressas. Um repórter correu atrás dele pela rampa do prédio gritando “pega ele”.
Um vigilante que estava no térreo deu uma rasteira no estudante e conseguiu detê-lo. Ao ser questionado se estava armado, disse que havia deixado a faca ao sair da redação. “Não me batam! Não vou reagir nem fugir”, afirmou Fábio. Enquanto isso, colegas de Rafael o colocaram numa maca e desceram para o térreo, onde foi socorrido cerca de cinco minutos depois, de ambulância. Ele morreu pouco antes de chegar ao Hospital Universitário, dentro do campus.
O corpo do jovem chegou ao Instituto Médico Legal (IML) no final da tarde de ontem. A mãe e a irmã passaram parte da tarde no hospital. A namorada e a família, que mora em Caieiras (Grande SP), não tinham ido ao IML para liberar o corpo até as 19h30 de ontem. Abalada e mantida sob efeito de tranqüilizantes, a família doou as córneas de Rafael.
Já Fábio foi preso em flagrante e indiciado por homicídio doloso (com intenção) com duas qualificadoras: sem chance de defesa e motivo fútil. Mesmo sendo réu primário, pode ser condenado a mais de 20 anos de prisão.