Educar dois ou mais filhos ao mesmo tempo nem sempre é uma tarefa simples. Há crianças que são agitadas, outras mais aplicadas nos estudos; alguns sofrem em relação à timidez e outros com problemas decorrentes da obesidade.
As diferenças físicas ou comportamentais entre os herdeiros da mesma família são inúmeras e estão presentes na maioria dos lares. Saber administrá-las é um desafio para os pais, que precisam abusar do jogo de cintura e sensibilidade para compreender e respeitar as particularidades de cada filho, aponta Roseli da Silva Ramos Eiras, psicóloga especializada em terapia familiar e psicodrama.
“Os filhos vão ser sempre diferentes, é só olharmos nossa própria vida. O primeiro filho tem algumas características e, pela própria inexperiência e imaturidade dos pais, ele pode acabar sendo educado de forma diferente. Com o segundo o casal está mais maduro e já sabe como lidar”, diz ela.
Segundo Eiras, as crianças que possuem idades próximas acabam fazendo muitas atividades juntas, mas isso não impede que as desigualdades entre eles passem despercebidas.
É o caso das gêmeas Alexia Corrêa Figueiredo e Helena Corrêa Figueiredo, 3 anos. Além das diferenças físicas - a primeira é morena enquanto a outra é loira -, elas possuem temperamentos quase opostos, aponta a mãe, a cabeleireira Andréa Corrêa Figueiredo, 34 anos.
“A Helena é tímida e mais quietinha. É a ‘bebezona’. Já a Alexia tem um temperamento mais forte”, conta ela, que possui outros dois filhos: Heitor Corrêa Figueiredo, 10 anos, e Alexandre Corrêa Figueiredo, 4 anos.
A exemplo das gêmeas, os meninos também têm características marcantes, aponta Andréa. “Todos são muito inteligentes, mas o Heitor adora ler e é tímido. O Alexandre é mais agitado e, se estiverem os quatro juntos, ele é o que mais conversa e chama a atenção dos outros”, observa.
Apesar das diferenças, todos são educados da mesma forma, assegura Andréa. “Não faço distinção entre eles, mas tenho de usar de uma psicologia diferente para dar bronca. O Heitor e a Helena entendem melhor um ‘não’. Já o Alexandre e a Alexia nos enfrentam mais e às vezes é preciso provar porque estamos respondendo daquela maneira”, revela.
Convivência
Situações como essa exigem conscientização dos pais para evitar exacerbar a rivalidade entre irmãos, fator muito comum nas relações familiares. Eiras explica que geralmente os filhos mais novos se espelham nos mais velhos.
“Dependendo do comportamento, se, por exemplo, o mais velho é desobediente ou não gosta de estudar, as crianças mais novas podem, mesmo que de maneira inconsciente, tomar uma posição diferente”, diz a psicóloga.
Esse tipo de comportamento, entretanto, não é observado na casa da autônoma Natália Alem Romão, 33 anos, mãe de Beatriz Romão, 9 anos, Gabriela Romão, 4 anos, e Mariana Romão, 3 anos. Ela conta que as muitas vezes as pequenas procuram “copiar” o comportamento da filha mais velha.
“A Bia é o exemplo. Ela faz uma coisa e as outras querem fazer igual. Inclusive percebo que ela me imita, é extrovertida e puxa papo com todo mundo, além de ser ciumenta”, descreve Natália.
Apesar disso, a autônoma conta que as três possuem traços de personalidade diferentes “A Gabriela é mais observadora e faz charme. Já a Mariana tem adoração pelo pai e, quando as irmãs estão brigando, procura não se envolver”, enumera. Por isso, ressalta ela, abusa de flexibilidade para lidar com as diferenças entre as meninas.
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Amor único
De acordo com Roseli da Silva Ramos Eiras, psicóloga especializada em terapia familiar e psicodrama, os filhos precisam ser educados conforme as suas próprias necessidades. Porém, muitas vezes, a criança que dá mais trabalho, por exemplo, pode acabar recebendo atenção especial dos pais.
“No contexto escolar, a criança desobediente recebe mais atenção do que a criança que faz a tarefa corretamente e que não traz nenhuma preocupação para o professor. Em casa, muitas vezes, isso acontece também. Mas é preciso ficar atento porque essa criança precisa de tanto carinho, aconchego e preocupação quanto a outra”, explica Eiras.
A psicóloga paulistana Catarina Wolff, idealizadora do Núcleo de Prevenção e Tratamento da Obesidade Infanto-Juvenil Espaço Leve, concorda com Eiras. “Às vezes uma criança muito agitada dá tanto trabalho que acaba ocupando o espaço da criança quietinha, que pode ficar sem espaço e acaba ficando intimidada mesmo”, aponta.
Para ela, é fundamental não “rotular” os filhos, no sentido de incentivar características ou crenças negativas. “Os pais devem evitar nomear a criança, dizendo que ela é mentirosa ou que é má aluna, por exemplo. Se os pais dizem que o filho é mentiroso, ele nem vai se esforçar para não mentir, porque agindo dessa forma ou não, já é considerado mentiroso”, esclarece.
Além disso, aponta Wolff, os pais devem se empenhar para não fazer comparações, compreendendo a diferença entre eles. “A criança precisa se sentir respeitada tanto pelo que ela pode oferecer quanto pelos seus limites”, diz.
Ao trabalharem as diferenças com respeito e atenção, as relações familiares tendem a ficar cada vez mais amadurecidas, aponta Eiras. “Os valores principais são importantes e devem ser passados tanto para um quanto para o outro filho, independente da diferença existente entre eles. Mas o que precisa servir de base na relação de pais e filhos é o afeto. O amor tem de ser o mesmo”, reforça.