Quem nunca colecionou objetos na infância, como papéis de carta ou figurinhas de jogadores de futebol, bolinhas de gude ou tampinhas de garrafa, que atire a primeira pedra. No caso do aposentado Henning*, essa pedra provavelmente fará parte de uma extensa coleção iniciada desde os tempos de garoto em Jaguaríava, Paraná, região conhecida pelo garimpo de ouro e que hoje é pouco explorada. “Quando estava nesse local, meu maior passatempo era fazer pesquisas de campo na beira do rio”, conta ele.
Desde então, Henning, que atualmente mora em Bauru, faz questão de proteger “suas pedras”, como são carinhosamente chamadas. A variedade é grande. São exemplares de vários tipos e cores, especialmente guardadas.
Outro hobby do aposentado é colecionar moedas antigas, atividade que começou praticamente junto com o interesse pelas pedras, diz ele. “Não tinha muito o que fazer e ficava brincando com um detector de metal. Naquela época, como não havia bancos, o pessoal costumava enterrar seus tesouros e eu corria atrás disso”, diz.
“Usava o detector de metal e onde eles diziam que havia uma bola de fogo, mulher chorando ou alguma assombração, essas coisas que as pessoas do Interior dizem, eu ia com o aparelho, sondava e achava as moedas”, detalha. O resultado das empreitadas são milhares de moedas nacionais e internacionais, entre elas peças datadas de 1830. São parte da minha vida”, acrescenta ele.
O escritor Lázaro Carneiro, 56 anos, também tem parte de sua vida contada por meio das coleções. Eletricista aposentado, ele sempre gostou de rádios, televisões e aparelhos eletrônicos. O interesse era tanto que desde a juventude passou a guardar esses objetos.
“Tenho 35 rádios movidos à válvula. Alguns são da década de 30, quando começou a popularização do rádio no Brasil, até os anos 60, quando saíram os últimos modelos à válvula e entrou o sistema de transistor”, revela. Nessa época, chegou a ter um programa de rádio pirata na juventude. “Eu falava, tocava músicas e mandava recados para meus ouvintes naquela época”, lembra, saudosista.
Além disso, Carneiro possui três aparelhos antigos de TV em preto e branco e cujos modelos ficam dentro de caixa de madeira, com portas para proteger a televisão; e quatro vitrolas, toca-discos antigos também movidos à válvula e em formato grande.
Juntamente com uma outra preciosidade, um carro Itamaraty modelo 1967, todos os objetos ficam na residência do escritor. “Eles ficam espalhados pela casa, ‘brigando’ com a minha esposa. De vez em quando passo um pano e óleo. Não sou ranzinza, mas não gosto muito que mexam neles”, entrega, dizendo que não pretende se desfazer de nenhum objeto de sua coleção tão cedo.
Ritual
O Natal é uma celebração importante para a maioria das pessoas. No caso da produtora gráfica Luciane Mendonça, 29 anos, a data é ainda mais especial. É porque nessa época que ela tem a chance de incrementar e mostrar sua diversificada coleção de presépios natalinos, especialmente decorados e guardados em sua casa.
O interesse começou há três anos, em Santa Cruz do Rio Pardo, cidade de origem de Mendonça. “Na época de Natal, gostava muito de ir para lá, ver um lugar onde sempre era montado um presépio. Para mim era importante e foi ficando ainda mais ao longo dos anos”, diz.
A decisão de colecionar presépios foi tomada com a reforma de um antigo exemplar de família, pertencente a uma tia. “A peça tinha uns 35 anos e ficava jogada, ninguém ligava. Mas todo ano eu o montava. A partir daí, comecei a investir em seu novo hobby”, relembra.
Até agora, a produtora possui cerca de 20 presépios. “Gosto de presépios diferentes e que tenham algum significado. Há alguns maiores e outros minúsculos, que nem ocupam espaço”, diz.
Um de seus preferidos veio da Itália e mostra o nascimento de Jesus dentro de uma bola de vidro. Há ainda presépios originais, como um que traz peças montadas dentro de uma vela redonda, ou ainda outro com peças pintadas com rostos de crianças.
Toda vez que olha para os presépios, a produtora se recorda da família e dos momentos felizes. “Sempre valorizei isso; com a coleção, acho que consigo traduzir esses sentimentos”, resume.
* Nome fictício para preservar a identidade do entrevistado