A crise que o sistema público de saúde enfrenta não é suficiente para abalar a credibilidade que a sociedade tem no médico. Os profissionais, que comemoram hoje seu dia, ainda mantêm com a população uma relação de confiança. Isso permite que os pacientes recorram aos doutores para sanar dúvidas das mais variadas. “Como questões trabalhistas, hábitos de higiene e dicas de culinária”, enumera o gastroenterologista Kazu Sawao Filho.
A confiança que a população deposita nos médicos é tamanha que uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope); promovida em agosto; revela: a instituição que o brasileiro mais confia são os médicos, de acordo com 81% dos entrevistados. Em seguida, vem a Igreja Católica (71%), Forças Armadas (69%) e os jornais (63%).
A população de Bauru, que foi uma das 143 cidades ouvidas pela pesquisa, não foge à regra. “A gente atende cada coisa! Ouvimos relatos íntimos que as pessoas não fariam a qualquer um”, observa o Kazu, que além do seu consultório particular, atende pacientes no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), no Pronto-Socorro Central e na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base.
“Ainda hoje, muitos pacientes decoram o dia que o profissional favorito está de plantão para não se consultar com outro”, revela o médico. É o caso de Edna Maria Ferreira, que só vai ao posto de saúde do seu bairro se o seu médico preferido está de plantão. “Caso contrário, eu volto outro dia”, assume. “E, se o médico começar a atender em outro posto, eu vou pra onde ele estiver”, garante Edna.
O outro profissional que Edna não abre mão é o reumatologista que visita com freqüência há quatro anos. “Conheço todo mundo da equipe. Eles acabam fazendo parte da família”. E a confiança, segundo Edna, é recíproca. “O pessoal da clínica me chama de sócia da casa”, diverte-se.
O coordenador do Departamento de Urgência e Emergência, Aigiro Kamada mostrou-se surpreso com o resultado da pesquisa. Para o coordenador, que também é médico, a população está cada vez mais exigente com o profissional, e por isso, mais contestadora. “Com a facilidade de se obter informações, muitos questionam as decisões do médico”, observa.
Porém, Aigiro afirma que é uma tendência do serviço público de saúde resgatar o médico “à moda antiga”. Para o coordenador, essa é a definição do profissional que preza também pela humanização do atendimento. “Programas como o Saúde da Família, são um bom exemplo disso”, exemplifica.
Construir a relação
Para Kazu, essa confiança que a população deposita na classe médica é resultado da construção de um relacionamento baseado no trabalho e no respeito. “Você conquista a credibilidade com o trabalho do dia-a-dia”, avalia.
“No Japão, o médico é conhecido por sensei, um mestre. Mesma designação de um sacerdote ou professor, porque o médico ensina a vida”, compara Kazu.
“Além da formação técnica, tem que ter a humana”, receita Aigiro. Segundo o coordenador, muito do que a profissão perdeu no atendimento emocional ao paciente deve-se às faculdades de baixa qualidade que proliferam pelo País. “Essa mercantilização da medicina pode levar à descrença das pessoas no médico”, analisa. “Por esse motivo também, a pesquisa me surpreende”, revela.
Segundo o coordenador, para promover essa relação entre os médicos e os pacientes, a Secretaria Municipal de Saúde vai investir no Programa Saúde da Família (PSF). “Esperamos que, já no próximo ano, a população possa contar com mais quatro núcleos do programa.”
No Dia do Médico, o único núcleo do PSF em Bauru e que chega a consultar 26 pessoas por dia, estava sem sua especialista. A médica Dulce Maria Viegas, que atende os moradores do bairro Pousada da Esperança I, estava de licença e só volta na primeira quinzena de novembro.