Num comício, depois do Zanelo cantar “Rio de Piracicaba”, a voz estereofônica do Flávio Pedroso fez a seguinte apresentação:
- Agora, com vocês, aquele conhecido médico do INSS e do Centro de Saúde, etc, etc.
- “Está na cara que os pedidos de consulta vão aumentar!”, pensamos.
A seguir, subimos no caminhão-palco com o mesmo entusiasmo de um boi que vai ao matadouro e começamos nossa arenga. Falamos os lugares-comuns que todo candidato fala e nos recolhemos à nossa insignificância. Era chegada a hora dos pesos pesados Zé Martha e Hugo Cavichini usarem a palavra. Súbito, um cidadão nos chama meio desesperado:
- Hei, dr,! Desce um pouquinho. Minha filha ficou cega!
Fomos conduzidos a uma casa onde uma adolescente estava num sofá, com os olhos arregalados, virados para o teto. Pedimos uma lanterna e vimos que os reflexos do olho estavam em ordem. Nos lembramos, então, da velha Histeria por Conversão, narrada por Sigmund Freud e resolvemos arriscar:
- Quando ela brigou com o namorado?
Aí foi o homem que arregalou os olhos.
– Como é que o senhor sabe?
A seguir, dissemos que a moça não tinha nada, que aquilo era passageiro, demos alguns conselhos, à moda Julio Lousada, o velho consultor romântico do rádio, e, na maior cara-de-pau, distribuímos os nossos santinhos. A mãe, emocionada, pegou um deles, o beijou e disse que ia colocar dentro da Bíblia. Na desconfiança, que a gente logo adquire no meio político, respondemos:
- Não precisa tanto, dona. Basta colocar nosso número na urna, que está muito bom!...
Contada por Rui Bertoti