09 de julho de 2026
Nacional

Mourão admite caixa dois, mas livra Azeredo

Por Chico de Gois | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Brasília - Cláudio Mourão, ex-tesoureiro do presidente nacional do PSDB, Eduardo Azeredo (PSDB-MG), candidato ao governo de Minas em 1998, confirmou a existência de caixa dois durante a campanha daquele ano.

Ele também revelou que o publicitário Duda Mendonça, que trabalhou para Azeredo, recebeu parte dos pagamentos por meio de “recursos não-contabilizados” obtidos através de empréstimos de Marcos Valério Fernandes de Souza.

“O serviço do Duda custou R$ 4,5 milhões, mas foram declarados (no Tribunal Regional Eleitoral) somente R$ 700 mil”, informou Mourão. Duda Mendonça não foi localizado. Sua assessoria de imprensa informou que ele está fazendo campanha na Bolívia.

Seu advogado, Tales Oscar Castelo Branco, também foi procurado, mas, até o momento, não foi encontrado. Sua secretária disse que ele havia saído do escritório. A exemplo de Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, que assumiu sozinho o ônus da irregularidade e poupou líderes do partido de envolvimento no caixa dois, Mourão afirmou que somente ele tinha conhecimento da prática de “recursos não-contabilizados” para a campanha do tucano. De acordo com Mourão, o pagamento a Duda foi feito em dinheiro, em parcelas que ele não soube especificar.

O recurso era entregue à sócia de Duda, Zilmar Fernandes da Silveira, que também recebeu dinheiro de Marcos Valério por conta da campanha do PT em 2002. O ex-tesoureiro de Azeredo negou, no entanto, que o acerto tenha sido realizado por meio de transferência para contas no Exterior. Em depoimento à CPI dos Correios, Duda admitiu que recebeu parte de seu pagamento pela campanha do PT em depósito nas Bahamas.

Mourão disse que era amigo de infância de Azeredo e, entre 1995 e 1998, foi seu secretário de Recursos Humanos e Administração. Em julho daquele ano, quando a campanha começou, disse ter tido dificuldade para arrecadar recursos e recorreu a Marcos Valério, que conhecera na torcida do América, no início da década de 90. Num primeiro momento, o publicitário mineiro obteve cerca de R$ 2 milhões por meio de um empréstimo no banco Rural, o mesmo que serviria para obter recursos entregues ao PT em 2003.

Pouco tempo depois, Marcos Valério fez mais uma transação financeira, no mesmo banco, de aproximadamente R$ 9 milhões, apesar de só ter recebido de Mourão R$ 1 milhão do empréstimo anterior. O ex-tesoureiro de Azeredo afirmou, ainda, que adquiriu veículos para a campanha em seu próprio nome e disse que o então candidato não sabia. Ele declarou que tanto os empréstimos de Marcos Valério quanto os carros adquiridos em 1998 não foram pagos e, por causa disso, moveu uma ação contra Azeredo no Supremo Tribunal Federal (STF).

A ação foi retirada há três meses, quando veio a público a informação de que Azeredo também tinha utilizado caixa dois na campanha. Na ação, Mourão declara que o então candidato sabia da aquisição dos carros. “Está errado na ação”, disse ontem. A sessão foi marcada pela disputa entre PT e PSDB na tentativa de imputar ao outro um grau maior de culpa pela existência de caixa dois.

Os tucanos levaram para a CPI um grupo de sete parlamentares, incluindo líderes, que não costumam aparecer nas sessões normais da comissão. Na ânsia de defender Azeredo, o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ) acabou por complicá-lo. Ele perguntou a Mourão se os empréstimos haviam sido feitos na época da campanha, o que foi confirmado pelo ex-tesoureiro, que já admitira a existência do caixa dois. “O PT está querendo confundir as coisas”, disse Paes. “Houve efetivamente caixa dois na campanha de 1998 porque não se conseguiu pagar”, declarou. O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), propôs a criação de uma subrelatoria para apurar a existência de caixa dois nas campanhas e, para irritação do PT, apresentou um requerimento para que sejam ouvidos tesoureiros do partido nos estados.

O PT, por sua vez, tentou mostrar que o PSDB também incorreu em irregularidade ao fazer caixa dois. Irônico, o deputado Carlos Abicalil (PT-MT) disse que Mourão deveria entrar com pedido de “direito autoral” por ter criado o sistema dos empréstimos para financiar campanhas com recursos não-contabilizados. Já a senadora Ideli Salvatti (PT-SC) afirmou que “corrupção não tem prazo de validade”, e, por isso, há que se investigar a campanha de 1998 de Azeredo.

O deputado Jorge Bittar (PT-RJ) cometeu uma gafe. Para ele, alguns parlamentares receberam “ingenuamente” os recursos de caixa dois. “Acho que o presidente Lula tem razão quando diz que há um certo exagero nessa coisa”, disse Bittar. “Quando se execra publicamente pessoas que receberam R$ 20 mil, R$ 100 mil, R$ 200 mil para as campanhas eleitorais, e que é errado”. O deputado Professor Luizinho, do PT de São Paulo, corre o risco de perder o mandato porque sacou R$ 20 mil das contas de Marcos Valério.