Brasília - Falando de fome, um de seus temas favoritos, e num clima de descontração que remonta ao início do mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou ontem que, “apesar de tudo”, tem valido a pena governar o País. E que, por conta disso, tem conseguido dormir com a “consciência tranqüila”.
O presidente participou ontem no Itamaraty de solenidade que marcou os dois anos do Bolsa Família, programa de transferência de renda que deve ser usado com destaque na campanha de reeleição do ano que vem. Recém-chegado de uma viagem de uma semana a quatro países da Europa (Portugal, Espanha, Itália e Rússia), o presidente tentou ontem demonstrar tranqüilidade diante da crise.
Em sua fala, além de não ter citado a turbulência política, fez brincadeiras com ministros e parlamentares, que respondiam com gargalhadas a qualquer pitada de humor do presidente. Antes de sua fala, Lula ouviu elogios ao programa social de representantes de Organização das Nações Unidas (ONU), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Banco Mundial (Bird).
Depois, em discurso improvisado de meia hora diante de ministros e parlamentares, atacou indiretamente a imprensa, prometeu que o Brasil nunca mais será o país do “acaso” e da “mágica” e disse que as críticas ao governo sempre devem “ser levadas a sério”. Diante disso, dirigiu-se ao ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) para falar de suas noites tranqüilas de sono.
“A gente sempre tem que levar muito a sério as críticas, analisar tudo (...) Agora, nada, nada, Patrus, é mais prazeroso para um ser humano, sobretudo que faz política, do que, apesar de tudo, deitar todo santo dia com a cabeça no travesseiro e dizer “hoje valeu a pena governar este País. Ontem valeu a pena ser o Ministro do Desenvolvimento Social’, porque chegar a 8 milhões de famílias, a 8 milhões, com a certeza de que poderemos chegar a quanto for necessário, e ainda acordar e ler no jornal que os juros baixaram mais um pouco, (senador petista) Aloizio Mercadante, saber que o emprego cresceu um pouco mais.” Anteontem, o Banco Central (BC) reduziu em meio ponto percentual a taxa básica de juros da economia, que agora está em 19% ao ano.
Sobre o tema, aliás, Lula tem posturas diferentes. Nos momentos em que vê o BC manter ou aumentar a taxa, o presidente fala em autonomia da instituição. Agora, diante do recuo dos juros, divulga a ação como se fosse oriunda do Palácio do Planalto.
“Eu acho que, mais importante do que tudo que estamos fazendo, é a gente dormir todos os dias com a consciência tranqüila de que, fiquem certos de uma coisa, o Brasil nunca mais será o Brasil do acaso, o Brasil nunca mais será o Brasil da mágica. Este País será um país grande, respeitado no mundo, na medida em que os seus governantes sejam grandes e se respeitem”, afirmou o presidente, que, ao citar as ações regionais do Bolsa Família, fez uma crítica indireta à imprensa. “Quando as coisas são boas eles não especificam e não dizem nem o nome de quem fez.
Quando são ruins eles nacionalizam e fica muito difícil as pessoas que estão em casa, que não sabem do programa, entenderem essas coisas”, declarou Lula. Reportagens nos últimos tempos já mostraram desvios no Bolsa Família em pequenas cidades, com políticos e as pessoas com mais dinheiro recebendo o benefício, enquanto os realmente pobres ficavam de fora.
Sobre o Bolsa-Família, disse que “o que menos me incomoda é saber se é assistencialista ou não”, debate que chamou de “academicista”. E afirmou que os seus sucessores serão obrigados a manter o programa, corrigindo “as coisas que possivelmente tenham falhas e aprimorá-las”.