08 de julho de 2026
Cultura

Inserção ainda é problema em Bauru

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

A 11.ª Mostra de Arte Sem Barreiras chega ao fim com um balanço positivo e, ao mesmo tempo, com a certeza de que ainda há muito por se fazer. A análise é do psicoterapeuta e coordenador do Núcleo Bauru do Programa de Arte Sem Barreiras, Dorival Vieira. “A mostra é a prova de que barreiras estão sendo superadas, mas se não houver uma participação efetiva da sociedade no processo de inserção social dos portadores de deficiência e até mesmo na prevenção das deficiências, nada vai mudar”, alerta Vieira.

Os obstáculos enfrentados no cotidiano por esses portadores puderam ser vivenciados por todos que se envolveram na realização da mostra. Dos hotéis da cidade, apenas um oferecia um quarto adaptado para acomodar os cadeirantes vindos de outras regiões do País. A solução encontrada foi hospedá-los em chalés, onde o acesso não depende de escadas.

Suzana Nogueira Godoy, secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Comude), levanta a questão da falta de estrutura para os demais portadores. “Quem tem dificuldades visuais ou mesmo auditivas dificilmente encontra uma adaptação às suas necessidades, como informações por sons ou braile”, ressalta. Godoy também levanta a importância de superar as barreiras comunicacionais. “Tão grave quanto os obstáculos arquitetônicos são as dificuldades de comunicação”, aponta.

Sobre o problema de infra-estrutura na cidade, a secretária informou que está sendo estudada a elaboração de um selo de acessibilidade pela Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), a exemplo do que ocorre em São Paulo. “O selo seria concedido às edificações de uso público mais bem adaptadas às necessidades dos portadores de deficiência, como uma forma de conscientizar a população sobre a importância de haver espaços acessíveis a essas pessoas”, afirma Godoy.

Até mesmo no Centro Cultural Carlos Fernandes de Paiva, local que sedia a mostra, o ingresso dos cadeirantes ao piso superior é difícil. O Secretário Municipal de Cultura, José Augusto Ribeiro Vinagre, reconhece que o acesso não é o ideal, mas garante que, para o orçamento de 2006, está prevista a colocação de um elevador. “O espaço para o elevador já existe. Neste ano fizemos um orçamento e tudo indica que para o próximo ano teremos o ascensor”, afirma.

Direitos iguais

Paulo Guilherme Zerbini é cadeirante e dançarino e veio do Rio de Janeiro a Bauru para a apresentação de hoje à noite (leia mais sobre a programação abaixo). De acordo com ele, os obstáculos encontrados no município são os mesmos de todo o País. “Tanto aqui como em qualquer outro lugar, nossa maior dificuldade é o acesso. Não há rampas nas calçadas, nem ônibus adaptados para toda a demanda existente”, informa.

Marcos Nunes de Fonseca, cadeirante, dançarino e estudante do curso de Educação Física no Rio, coloca a necessidade de os portadores serem encarados como pessoas normais. “Nós não queremos entrar de graça nos ônibus, o que queremos é ter acesso ao transporte. O que adianta não pagar e não entrar?”, questiona.

Sobre a mostra, Zerbini salienta a importância da arte como processo de inserção social. “As pessoas, deficientes ou não, se surpreendem ao nos ver dançar. É uma forma de chamar os portadores de deficiência para que saiam de casa e exerçam suas atividades normalmente”, observa o dançarino. Para ele, a arte não tem preconceitos. “A dança é a expressão do corpo, independente de o corpo estar numa cadeira de rodas ou não”, complementa.

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Programação

A mostra começa às 14h, com a oficina de confecção de bonecos com a arte-educadora Sandra Regina da Silva voltada a terapeutas e professores. A oficina tem 20 vagas. Em seguida, às 14h30, ocorre a apresentação do Coral do Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação (NIRH) do Centrinho/USP, no Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves. Às 15h, Paula Nóbrega, diretora da Cia. de Dança sobre Rodas, do Rio de Janeiro (RJ), ministra uma oficina de dança para cadeirantes e andantes.

Às 20h, será exibido o filme “Ray”, sobre a vida de Ray Charles. Às 21h, a Cia. de Dança Sobre Rodas, do Rio de Janeiro (RJ), se apresenta no Teatro Municipal. Formado há dois anos, o grupo, composto por cadeirantes e andantes, é dirigido por Paula Nóbrega e tem como principal coreógrafo Ari Cordeiro.

Na seqüência, a Limites Cia. de Dança, de Curitiba (PR), apresenta o espetáculo “Limites em Movimento”, com bailarinos portadores de deficiência física e bailarinos convencionais. A coreografia é de Andréa Sério. Todas as atividades são gratuitas. Mais informações pelo telefone (14) 3235-1072.