Nacionalismo. Isso, na opinião do deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) é o que mais falta ao brasileiro, que em geral deixa as coisas positivas do País de lado para destacar as ruins. “Tem robalheira aqui? Tem. Na França, nos Estados Unidos também. Só que eles escondem isso do resto do mundo”, avaliou, ao falar sobre a estima baixa do País neste momento de crise política. Numa entrevista de pouco mais de uma hora, Pedro Tobias falou sobre política e o que talvez seja sua mais dura batalha: dividir a vida pública e atender aos reclamos da família. A seguir, os principais trechos:
Jornal da Cidade – As especulações sobre candidaturas para 2006 já começaram. Bauru terá Pedro Tobias disputando São Paulo ou Brasília?
Pedro Tobias – Ainda não estamos discutindo, mas na política tudo é possível. Hoje, porém, há 95% de chances de eu ser candidato a deputado estadual.
JC – Por que não deputado federal?
Pedro Tobias – Hoje eu tenho meu espaço no Estado. Já falei com muitos deputados federais e para cada um ganhar o seu espaço demora anos. Mas tudo é possível, estamos esperando. Já falei com nosso amigo, nosso governador Geraldo Alckmin sobre isso, mas não definimos nada ainda.
JC - Se o governador Geraldo Alckmin sair candidato à Presidência da República no ano que vem o quadro muda?
Pedro Tobias – Também já conversamos sobre isso, mas vamos esperar até fim de março para decidir. Se depender de mim, saio a estadual. Mesmo perdendo o governo do Estado - vamos ganhar, sem dúvida nenhuma -, mas mesmo perdendo, em política tudo pode acontecer, eu viro um líder de oposição. Tenho meu espaço tanto na situação como na oposição, hoje, na Assembléia.
JC – Não seria melhor para Bauru ter um deputado federal, depois de tantos anos?
Pedro Tobias – Se Geraldo Alckmin sair candidato a presidente e ganhar a eleição, mesmo eu estadual, vou fazer um papel meio federal também. Essa equipe dele, copa e cozinha, vem desde a época de Prefeitura de São Paulo. Essa equipe já está com ele há vários anos. Significa que vai com ele para o Palácio do Planalto. Vamos continuar o contato facilitado. Também podem sair dois estaduais e dois federais. Por isso, estou conversando bastante com o Caio Coube para que ele saia. O governador ligou para ele esses dias. Ele está resistindo, mas ainda está cedo. Antes de março, falar sobre candidatura é bobagem.
JC – O senhor já disse que prefere disputar a Assembléia Legislativa, mas numa dobrada com quem?
Pedro Tobias – Tem o Marcelo Borges, tem o Reinaldo Rocha, o Toninho Garmes. Mas, a meu ver, Caio teve votação expressiva tanto para deputado quanto para prefeito. Cada eleição é uma eleição, mas ele já mostrou que é bom de voto. Não sou eu quem vai decidir, e sim o partido.
JC – Mas o senhor, como deputado e candidato, certamente terá peso decisivo nesse processo de escolha.
Pedro Tobias – Eu acho que na política tem fila, mas essa pode ser uma avaliação errada. No quadro atual, quem tem mais chances de ganhar é o Caio. Por isso, tenho preferência por Caio. Mas qualquer um que saia terá boa votação. Hoje, a legenda e o governador vão puxar. O candidato a presidente também. É um momento bom para o PSDB.
JC – O senhor saindo a deputado federal, como fica o processo de escolha do nome à Assembléia Legislativa?
Pedro Tobias – Vai ser uma briga feia... Se eu sair federal, mais um da região quer sair a estadual. O prefeito João Sanzovo Neto (Jaú) tem interesse. Não é só Bauru que elege, tem a região toda.
JC – Não vai dividir demais os votos?
Pedro Tobias – Não, vai somar. Eu prefiro um soldado dentro do exército forte que um general sem exército. Se sai de Lins, também, é bom. Pode perder um pouco, mas fortalece a legenda, elege mais deputados. Precisamos pensar um pouco mais no partido, no coletivo. Até pouco tempo, se alguém queria crescer no partido, não dava legenda para outro. Muitos partidos sofrem até hoje por causa disso. Eu, de coração, acho que não tem problema nenhum. O momento é bom para o partido.
JC – Também é um bom momento para disputar a Presidência da República? O Alckmin já admitiu que é candidato, mas as correntes pró-José Serra e pró-Fernando Henrique Cardoso estão se mexendo bastante. Como o senhor vê essa disputa?
Pedro Tobias – Serra é um excelente administrador, mas acho que não pode largar a prefeitura. A Prefeitura de São Paulo é uma potência. E aqui eu não vacilo, meu candidato é o Geraldo Alckmin. Se houver briga na convenção, eu voto em Alckmin, mesmo que o Fernando Henrique entre na parada. Mas eu acho que vamos convencer o Fernando Henrique a sair candidato ao governo de São Paulo. Acho que o Serra deve permanecer na prefeitura. Começo de mandato é suicídio sair. Eu tentei e levei cacetada. O povo não aceita. Ele está fazendo um trabalho bom, mas a vez, agora, é do Geraldo Alckmin.
JC – A crise política pela qual passa o PT pode ajudar o PSDB nessa eleição?
Pedro Tobias – Sem dúvida. Aliás, essa crise pegou mais o PT que o presidente Lula. O Lula foi poupado. E os deputados do PT estão sentindo a gravidade da situação. Nos grandes centros urbanos, devem sair muitos votos brancos e nulos. Para nós, no Interior, vai ser menos. O deputado é mais conhecido. Dessa vez, o eleitor quer, a meu ver, caráter, seriedade do candidato. A eleição de Lula foi boa para o País. Antes da eleição dele, o PT vendia ilusão de que resolvia tudo. E ninguém resolve, nem dentro de casa. O PT ficou 20 anos falando que era diferente e melhor que os outros. Vão demorar mais 20 anos para mostrar que eles são, no mínimo, iguais aos outros.
JC – Como o senhor avalia a situação do PT hoje?
Pedro Tobias – Todos os governos têm gente que faz falcatruas, mas nunca foi montado um esquema hierarquizado, tipo máfia, no Planalto. Não estou falando que no governo Geraldo Alckmin tem alguém metendo a mão, no governo Fernando Henrique não teve, até na casa da gente às vezes acontece. Não sou bobo para falar que todo mundo é santo, mas nunca foi uma organização controlada por alguém que tinha a sala ao lado do presidente. Essa cúpula do PT é stalinista, só pensa no fim. Não tem público, particular. Partido, governo, para eles é tudo igual. Deu no que deu.
JC – Essa situação toda pode mudar o modo de se fazer campanha no País?
Pedro Tobias – O Legislativo representa a sociedade. Tem intelectual, tem analfabeto, tem honesto, tem desonesto. Na sociedade tem isso. Para o Executivo, a exigência vai ser maior. O eleitor vai cobrar menos discurso, mais ação, mais eficiência, independentemente de ideologia política, de ser de centro, de direita ou de esquerda. Acho que a eleição vai ser centralizada na Presidência da República. O resto vai pegar rabeira.
JC – Voltando a falar de Bauru, nesse ano o que chamou a atenção foi o seu bom relacionamento com o prefeito Tuga Angerami (PDT). É uma prática que deve perdurar em 2006?
Pedro Tobias – Ano que vem tem eleições estaduais e federais. Precisamos pensar a relação pessoal e pensar no relacionamento institucional e coletivo. Eu votei no Caio. Perdeu? Paciência. Ele é o prefeito da cidade. Ele goste de mim ou não, eu sou deputado. Nós dois somos obrigados a ter um bom relacionamento pelos interesses da cidade. Tem divergências? Tem. Mas estamos fazendo tudo para ajudar Bauru. Não se trata do problema do Pedro ou do Tuga. O diálogo aberto é importante para a cidade. Não estamos fazendo nada além da nossa obrigação.
JC – Os vereadores Toninho Garmes e João Parreira, ambos do PSDB, também estão bem próximos do prefeito Tuga.
Pedro Tobias – Isso é bom. A Câmara tem muitos projetos importantes que precisam ser avaliados com cuidados. Quem é oposição e nunca foi governo, fala muito para agradar a população. Se compararmos a oposição do PSDB ao Lula é diferente da feita pelo PT ao Fernando Henrique. Sempre digo: somos oposição, mas não somos contra a cidade. Projetos bons, precisamos votar. Se não agrada, paciência. Na política, se faz o que pode, não o que quer. É igual na casa da gente. Muita gente gostaria de fazer um monte de coisa, mas nem sempre o dinheiro dá.
JC – O fato de o senhor ter sido vereador ajudou a construir esse posicionamento? O que mudou do Pedro vereador para o Pedro deputado?
Pedro Tobias – Cabelo branco, mais tolerância, mais paciência, mais maturidade... Quando a gente é novo se acha dono do verdade, mas erramos igual aos outros.
JC – Que avaliação o senhor faz do PSDB hoje?
Pedro Tobias – Eu acho o PSDB um partido moderno. Infelizmente, na parte econômica, precisamos engrossar um pouco com os banqueiros. Veja o Néstor Kirchner, lá na Argentina. Mostrou os dentes e conseguiu redução de juros. O Estado de São Paulo paga juros altos. A maior falha nossa foi ter só o objetivo de acabar com a inflação. Precisamos mudar, deixar uma parcela maior para investimentos. Mas é um partido de gente com eficiência administrativa.
JC – Falando um pouco do pai e marido Pedro Tobias. A cobrança é muito grande?
Pedro Tobias – Eu falho com eles, sem dúvida. Porque também sou médico. Hoje (sexta-feira, 18h20) eu ainda não voltei para casa. A família do político sofre. Para vencer, o político precisa de uma mulher companheira, que ajuda. A minha mulher é uma heroína. É marido, é mulher, decide tudo. Minha filha sofre, eu fico com a consciência pesada, não vejo ela crescer.
JC – E vale a pena?
Pedro Tobias – Vale. Todos nós, cada um de nós, temos que fazer o máximo, o melhor. Tive essa oportunidade, estou fazendo o meu papel. Não sou perfeito, falo bobagens, mas acho que devo fazer mais. Vale a pena. Eu acredito no Brasil, muitas coisas estão melhorando. Não podemos nos comparar com a Europa, nós ainda somos crianças. O problema é o que brasileiro tem vergonha do País, só mostra as coisas ruins do País. Os outros não, destacam as coisas boas, são mais nacionalistas. Tem robalheira aqui? Tem. Na França, nos Estados Unidos também. Só que eles escondem isso do resto do mundo. Eu, como brasileiro adotivo, tenho orgulho do Brasil. Eu, por exemplo, não imaginava esse lado tão pobre dos Estados Unidos. Fiquei conhecendo agora, com o Katrina.
JC – O senhor perdeu um grupo político, seu irmão Moussa Tobias...
Pedro Tobias – É difícil. Dia 25 agora seria aniversário dele. Faz muita falta, falava com ele diariamente. Faz muita falta para mim, para a família. Cada um na vida precisa de um amigo. Troquei idéias com eles várias vezes. Discutia com ele votações polêmicas. É difícil. Hoje, quando tenho alguma dificuldade, consulto o Alcides Franciscato, que foi deputado, conhece bem a política. É preciso ter alguém fora do circulo diário, alguém que tem experiência para trocar idéias.