08 de julho de 2026
Articulistas

O perfume


| Tempo de leitura: 4 min

O mais difícil para quem escreve é descobrir o assunto que seja do interesse de grande parte do público leitor. A esta altura, muita gente quer passar ao largo do referendo, da soltura dos Maluf e da febre aftosa. Eu, inclusive. A urucubaca do Lula e o sonho realizado de ser apresentado à múmia de Lênin na Praça Vermelha, também não me entusiasmam. Li todos os “sueltos”, como os jornalistas antigos denominavam aquelas notinhas perdidas de pé de página e usadas para encher espaço nos diários. Em busca de uma mísera inspiração.

Finalmente encontrei o que comentar: o Empório Armani gastou US$ 10 milhões para lançar o seu último perfume. Muito mais que a Paris Hilton, que veio ao Brasil para promover o mesmo tipo de produto com a sua grife e trouxe num Boeing exclusivo uma penca de cabeleireiros, maquiadores, assessores de comunicação, fotógrafos e até médicos e enfermeiras. Aquela notícia me remeteu imediatamente ao romance de Patrik Suskind, “O perfume”, que tanto me impressionou há uns dez anos pela sua forma estrutural inédita. A história é ambientada na Paris do século 19, aonde um garoto veio à luz em plena feira livre, em meio a restos de cebolas e peixes fedorentos. O nenê chamava a atenção pelas ventas avantajadas. Desde os primeiros dias o bebê-nariz já procurava sentir os odores da vida. Torna-se, ainda jovem, um grande perfumista. Impossível alguém mais vocacionado. Logo era imbatível na sua alquimia. Descobre os fixadores, de cheiro insuportável quando isolados, mas indispensáveis para dar difusibilidade às colônias. Hoje são produtos caríssimos, como o âmbar gris e o almíscar. Mesclados a essências delicadas como rosas búlgaras, violetas, lavandas, flores de laranja, raízes, madeiras e sementes o químico produz os odores mais inebriantes. No livro, o mago-nariz dos perfumes faz sensação em todas as cortes européias. Cada lançamento é melhor que o anterior. Cansado de bater os próprios recordes um dia vê uma linda jovem e sente de longe o perfume que emana dela toda - cabelo, pele, seios, axilas, partes genitais e do vestuário. Enlouquece. Aquilo era muito melhor do que tudo que já havia cheirado e criado. Consegue seqüestrá-la, depois de perseguição implacável, para fazer dela uma essência. Cristaliza sua paixão de forma a acomodar o fruto de um amor incontido num frasco de cristal. Chega assim ao cume da carreira jamais alcançado por outro perfumista. Essência parecida somente no céu, ou no inferno. Realizado, é preso sem resistência para pagar pelo seu crime.

Hemingway dizia que “perfume é dinheiro jogado fora”. Espirrava em farmácias e elevadores. Alergia, provavelmente. O único perfume que aceitava era o da garota que sai do banho. Não perdoava nem bebê saído da bacia com cheiro de sabonete Johnson. Ou Pompom. É só uma questão de engarrafar garotas e bebês. Meu amigo Renato Leme observa que conseguem engarrafar pinga com murici, com catuaba, com pitanga, umburana e sei lá mais o quê. “Por que não uma garota saída do banho ?”

O escritor especializado em comportamento sexual humano Alex Comfort escreveu um livro (Os prazeres do sexo) de muito sucesso nos anos 70, no qual confirmava que o perfume natural de uma mulher constitui o seu maior atrativo. Para certos homens é até mais importante que a beleza. Nada seduz o homem de maneira mais duradoura. E vice versa. A sensibilidade aos perfumes humanos pode ser até inconsciente. Há muito mais simpatias e antipatias humanas baseadas no cheiro do que a nossa cultura “loção de barba-desodorante” admite. Muitas pessoas, especialmente as mulheres, deixam que o nariz decida se devem ou não ir para a cama com alguém. Comfort condenava as mulheres que depilavam as axilas, embora justifique o costume em países quentes como o Brasil. Na França as mulheres há muito repararam no atrativo sexy deste sistema piloso. Raspar as axilas revela ignorância e é considerado até um ato de vandalismo. Desodorante foi completamente banido. Água e sabão e só. Mas não seria como uma flor sem perfume? O cheiro do cloreto de alumínio emanado de uma axila feminina, para Comfort, é o que há. Concordo em parte. Já fui adepto da cerveja, suor e sexo. Mas também não precisa ser como o inglês que proíbe qualquer limpeza no cachimbo além de um simples bater com a palma da mão no fornilho para expelir as cinzas. Algo discreto serve para realçar os bons odores naturais. Sim ou não? Às urnas...

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC