A busca excessiva pela fama corre o risco de invadir o campo da banalização do ser humano, analisa Vera da Rocha Resende, doutora em psicologia clínica e autora do livro “Convivendo com a Telenovela”.
Segundo ela, atualmente, existe uma tendência para que a exposição da imagem seja cada vez mais valorizada.
“Nós estamos vivendo a era da câmera. Somos filmados 24 horas, querendo ou não. E é óbvio que o desejo de se expor ou de querer afirmar sua própria existência faz com que, por exemplo, as pessoas liguem sua webcam e fiquem se mostrando para todo mundo”, aponta Resende.
Ela explica que a cultura valoriza o “ter”, em detrimento do “ser”. Na busca por sentido na vida, as pessoas lutam para que os outros reconheçam seu corpo ou seu rosto, ressaltando o valor da aparência e da fama, mesmo que elas sejam passageiras.
“Li alguns depoimentos de alguns ex-BBBs e eles contaram que depois que o programa termina voltam para o ostracismo; alguns ficam desencontrados porque não seguram a barra de terem ficado tão famosos e depois serem esquecidos”, exemplifica Resende.
“Num mundo que desvaloriza o ‘ser’, o que sobra é realmente a exposição”, reforça a psicóloga. Nesse contexto, a preocupação de educadores e da sociedade em geral é em relação às crianças, que acabam crescendo com a cultura de valorização do “ter”.
“É uma mentalidade que vem sendo construída pelos adultos, que imprimem isso nas crianças. Elas reproduzem o que os adultos fazem”, destaca Resende.
“Se a mãe valoriza a exposição, ela vai educar sua criança para que ela também se exponha. Basta perceber quando há algum concurso para modelos, por exemplo, a grande quantidade de crianças inscritas”, complementa Resende.
Pegando carona nesse contexto atual, as propagandas com beldades e excesso de plasticidade contribuem para reforçar ainda mais a cultura da imagem, pontua ela.