A propensão de uma parte do povo brasileiro para participar direta ou indiretamente de atos de corrupção, bem como uma estória que ouvi há 27 anos acerca dos meandros do futebol brasileiro, me fez aceitar com certa naturalidade o chamado escândalo do apito no Campeonato Brasileiro.
A propensão é nítida e indiscutível, pois não há nada na face do território brasileiro que envolva dinheiro e poder que não tenha sido vítima de um golpe ao menos nas últimas décadas. É caixinha, suborno, corrupção passiva e ativa, é mala preta, é falsificação, roubo, desvio de verba pública, superfaturamento de obras e serviços, fraudes em licitações, roubo de dinheiro no Banco Central, sumiço de dinheiro apreendido pela própria Polícia Federal e subtraído pela própria equipe. É tanto golpe que se fôssemos codificar já estaríamos na casa dos dez dígitos e precisando de uma linguagem binária de última geração para poder acompanhar a evolução da corrupção crescente de nossa gente brava e de colarinho branco ou até descamisada.
Quanto à estória que me foi contada por um grande amigo, em 1978, esse amigo foi empregado de um clube de São Paulo por muitos anos, trabalhando, entre outras atividades, como tesoureiro da agremiação. Entre suas funções, estava a de levar dinheiro em malas para alguns juizes no Interior do Estado de São Paulo, para que os mesmos cumprissem a promessa de ajudar o seu time no Campeonato Paulista, evitando assim alguma derrota que pudesse rebaixá-lo à segunda divisão. Ele me dizia que éramos inocentes e ingênuos em acreditar nos resultados das partidas de futebol, pois muita água corria por debaixo das arquibancadas e dos bastidores da Federação Paulista e seus clubes associados. Tantos anos depois e vejo que meu velho e bom amigo estava totalmente certo quanto à fraqueza de nossas arbitragens que tal qual uma boa parte dos brasileiros está sempre propensa a um bom e velho golpe.
Não é à toa que no futebol a renovação acontece apenas com os jogadores, pois os dirigentes são verdadeiras múmias intocáveis, que só largam o filé mignon quando morrem. São administradores jurássicos que enriquecem na mesma proporção em que seus clubes empobrecem. As eleições são viciadas e os mesmos presidentes ocupam sempre a presidência, haja visto o reinado de Eurico Miranda no Vasco da Gama, de Alberto Dualib, que está há 13 anos no Corinthians, e tantos outros que reinam impunes e absolutos no nosso pobre podre futebol.
Somos pentacampeões por absoluta falta de talentos em profusão no demais países, coisa que temos em excesso. Mas se houvesse um torneio de dirigentes nós estaríamos na quinta divisão do futebol mundial, tal a incompetência e a ausência de ética e moral de nossos dirigentes.
O caso dos juizes presos em São Paulo é uma tragédia anunciada pois um dos elementos já havia dado vários motivos para ser excluído da lista de árbitros do País e no entanto apitava jogos do Campeonato Paulista e Brasileirão com freqüência impressionante. O meliante forjou documentos para provar sua escolaridade e nem assim os “responsáveis” pelas comissões de arbitragens desconfiaram de sua idoneidade, aliás até o promoveram a arbitro da Fifa à instância máxima do futebol mundial, também administrada por homens que mais parecem Ramsés III, Tutancamon e outras múmias menos conhecidas.
Assim caminha o país do mensalão, do mensalinho, da corrupção, do desemprego, da fome, enquanto uma minoria se locupleta com golpes e atos que nos envergonham e nos deixam com o sentimento que jamais seremos uma nação de primeiro mundo. Eu trocaria os cinco títulos mundiais do futebol por uma nação que fosse premiada por seu desenvolvimento, investimento em educação e respeito ao ser humano e a natureza. E você?
Rafael Moia Filho