09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A odisséia dos professores


| Tempo de leitura: 5 min

O assunto é extremamente delicado para as partes que o motivam e perigoso para quem o escreve: um leigo embasado em informações fidedignas. Calar diante da situação seria acovardamento, insensibilidade e omissão. “Quem cala, consente”. Seria compactuar com situação prejudicial à sociedade, às crianças e aos professores do ensino fundamental e médio, que são as sementes do futuro na formação familiar, social e profissional da meninada. Por isso a inspiração e a ousadia de escrever baseado, repito, em informações da maior credibilidade.

Nas minhas relações de amizades, muitas, graças a Deus, existem inúmeros professores. Tendo ouvido afirmações de atitudes inadequadas de educandos, conversei com diversos a respeito do assunto. Confesso: fiquei perplexo e assustado com os dados que tive do comportamento de alguns (e não são poucos) alunos, que passo a explicitar:

Desrespeito aos mestres e às aulas; alunos afrontando educadores, olhos nos olhos, com cinismo intimidador; agressões verbais com palavrões do mais baixo calão; ameaças de agressões físicas; desafios com insultos; no recreio e durante as aulas, desrespeito aos colegas mais educados com xingamentos e ameaças: “te pego lá fora”, muitas vezes “pegando” mesmo.

Quando os pais são convidados para entrevistas, se apresentam cautelosos, na defensiva: ouvindo com atenção, com displicência, ou com grosserias; responsabilizando, quase sempre, os professores e a escola pela conduta dos filhos.

Pais que deveriam proceder como amigos e não como colegas dos seus filhos; incentivando-os para a escola, e não para “ficarem livres” deles no horário escolar; omitindo-se dos seus cuidados paternais sem qualquer sentimento de religiosidade e aflição na consciência.

Por razões óbvias, não registro casos estúpidos que me foram relatados; que ferem a dignidade de qualquer pessoa que, cerceada, é obrigada a engolir e levar desaforos para casa.

Alguns professores confessaram que muitas vezes, após as aulas, chegam a suas casas angustiados pelos palavrões com que foram atacados por um aluno; pelas agressões e provocações; pelo desgaste causado com o esforço para manter o autocontrole e evitar constrangimentos; que, apesar de gostar do magistério, se pudessem, mudariam de profissão.

Tenho um amigo professor, estressado, trabalhando (para não dizer “encostado”), como auxiliar na secretaria da sua escola. Quantos como ele, estão, provavelmente, nessa situação?

Consultei também diretores e coordenadores que desafogaram as diárias dificuldades cruciais que vivem com abusos de alunos; e dos limites implantados pelas leis que bloqueiam ações para manter o respeito e a disciplina.

O que surpreende é que são crianças e adolescentes que, suponho, não são orientados pelos pais ou responsáveis para respeitarem os professores. Ou, quando são orientadas,“não estão nem aí” com as recomendações paternas, feitas, possivelmente, “com muito carinho”, sem o rigor que a responsabilidade de educar exige.

A legislação proíbe, corretamente, castigos físicos ao aluno, com “o direito de ser respeitado por seus educadores”, do Estatuto da Criança e do Adolescente. Sem a intenção de provocar celeumas, defendendo sempre o direito do menor e também o direito do educador, permito-me registrar o seguinte raciocínio: quando acontece um professor chamar a atenção da criança em tom alto depois de ofendido e, estressado, mais alto ainda, colocando-a fora da classe e mandando-a para a diretoria tocando-lhe levemente o ombro, o escândalo está inventado; todo o mundo bota a boca no mundo, transformando a criança em vítima e o professor em carrasco. Quando ocorre o oposto, quando o professor é agredido moralmente e é ameaçado pelo aluno, a situação é contornada; o silêncio esconde a ocorrência até cair no esquecimento; sobrando apenas a imagem “cruel” do mestre. É...

É evidente que as crianças não sabem o mal que praticam em prejuízo próprio. Afinal, são crianças. A maioria, filhos de trabalhadores com ou sem escolaridade; alheios aos procedimentos sociais, culturais e aos deveres da respeitabilidade; que ignoram ou desprezam a nobreza dos professores, o templo que a escola representa e, o pior, o dano que estão causando aos filhos.

A realidade é difícil, transformando crianças e professores em vítimas de situações desagradáveis e complicadas de origens complexas. O problema é um desafio para a estrutura da educação que busca a edificação do seu futuro. É cômodo transferi-lo para o sistema, para os pais, para os mestres, para as escolas com argumentos inaceitáveis e alegações vazias.

Cada parte tem a sua parcela de responsabilidade e culpa na questão que se agrava. O futuro está aí, na dobra da esquina da esperança, projetando a família, o trabalho, a realização profissional e a independência social e econômica para cada estudante. Educando a criança a sensibilidade do respeito ao próximo (leia-se, no momento, “ao professor”), o porvir, com toda certeza, ser-lhe-á promissor para transformar sonhos em realidades e merecer considerações como cidadão admirado e respeitado.

O problema é muito sério. Reclama solução urgente; é da competência de todos: dos pais, sabendo o modelo de filho que estão criando, orientando-os e exigindo-lhes reverência aos seus mestres; de professores, diretores e coordenadores que negligenciam suas obrigações no sagrado dever de educar; dos responsáveis pelo ensino, implantando métodos, buscando resultados positivos. Não seria o caso de revivificar o bedel, criando-lhe o aspecto severo e educado do disciplinador? Ou estudar formas que motivem e recompensem o entusiasmo das crianças pelo respeito aos mestres e aos estudos? Ou aulas para crianças problemáticas por orientadores gabaritados para a tarefa? Ou palestras específicas para as crianças e seus pais na dimensão cultural de cada um? Ou até medidas radicais afastando o exemplo indesejável até que os pais o eduquem para o seu retorno e seja, por suas mãos, reconduzido à escola? Caminhos existem. Buscá-los, é preciso. Com coragem, razão, criatividade, coração e energia no empenho. É a opinião de um leigo preocupado e intrometido (que me perdoem os tecnocratas) a bacorejar; que admira e respeita professores, alunos e, religiosamente, este Brasil abençoado por Deus!

“Criança! Não verás país nenhum como este! / Olha que céu! que mar! que rios! que floresta! / A Natureza, aqui, perpetuamente em festa, / É um seio de mãe a transbordar carinhos!...” / Criança! Não verás país nenhum como este: / Imita na grandeza a terra em que nasceste! (Olavo Bilac - A Pátria)

Professores, crianças e adolescentes, devem ter, por merecimento e justiça, a estima e o reconhecimento de todos: dos governos, com melhores e justos salários e condições convenientes de trabalho; da sociedade, contribuindo para a formação das crianças. Antes que algum fato mais grave aconteça. Antes que o futuro zombe do passado.

Munir Zalaf - RG 2.727.956