09 de julho de 2026
Geral

Idosos apostam em novo estilo de vida

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 5 min

Aos 62 anos, a dona de casa Ana Querino tem energia de sobra para participar de um coral, grupos de dança e teatro e trabalhar com artesanato. Além disso, é integrante da Universidade Aberta à Terceira Idade (Uati) da Universidade do Sagrado Coração (USC), que oferece diversas atividades socioculturais para a terceira idade.

Quase sem tempo para ficar em casa, Maria Helena Pinho de Assis, 63 anos, também possui uma agenda agitada, que inclui a participação na Uati e em outros grupos do gênero, além de leitura, viagens e passeios com amigos.

Assim como Querino e Assis, cada vez mais ativas, pessoas com mais de 60 anos incrementam seu dia-a-dia com atividades de lazer e cultura. E 70% desse público se declara satisfeito com seu estilo de vida, segundo pesquisa recente realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública (Ibope) Mídia.

Desenvolvido em nove regiões metropolitanas do País, incluindo São Paulo, o estudo ouviu 2.200 pessoas com mais de 60 anos e apontou aspectos de consumo, produtos, serviços e comportamento.

É a primeira vez que uma pesquisa como essa é realizada no Brasil, aponta a diretora comercial do Ibope Mídia, Dora Câmara. “O mercado é muito carente de informações sobre esse público e a tendência mundial diz que as pessoas vão viver mais tempo. A expectativa de vida é muito mais alta do que era alguns anos atrás”, diz.

Por esse motivo, ressalta ela, a maioria das pessoas que têm entre 60 e 70 anos são otimistas em relação ao futuro. “Elas acreditam muito mais na sua vida do que no governo”, observa Câmara. De acordo com o Ibope, 58% dos entrevistados acham que sua própria vida vai melhorar nos próximos cinco anos e 24% apostam na melhoria da situação socioeconômica do Brasil.

É o caso do policial militar aposentado Valquírio Donato Ferreira, 61 anos. “Como a expectativa de vida aumentou, assim como eu, muitas pessoas desejam viver muito tempo e por isso procuro me atualizar sempre. Acompanho a evolução do dia-a-dia para não ficar dependendo dos outros”, conta ele, que não perde os jornais diários.

A aposentada Leda Improta, 68 anos, prefere acompanhar as notícias pelos jornais impressos, assim como 41% do público entrevistado na pesquisa do Ibope.

O rádio é meio de comunicação ouvido por 80% dos idosos, segundo a pesquisa. A maioria dos entrevistados nessa categoria gosta das músicas e notícias veiculadas durante a programação. O pedreiro aposentado Jair Batista, 67 anos, costuma ouvir rádio todos os dias.

Além disso, ele faz alguns trabalhos extras para complementar o salário que recebe por meio da aposentadoria, caso de muitas pessoas acima de 60 anos (leia texto abaixo).

Internet

Embora a tecnologia esteja cada vez mais inserida entre o público da terceira idade, ainda é pequeno o número de idosos que têm acesso à Internet. Dados do Ibope apontam que apenas 6% deles são usuários da rede.

Segundo Mariá Jane Ribeiro Longhi, diretora do Centro Social Urbano (CSU) da Bela Vista, que oferece atividades culturais e de lazer à aproximadamente 60 idosos de Bauru, esse cenário se comprova entre os freqüentadores do local.

“Dos senhores que jogam truco, por exemplo, acho que nenhum tem Internet. Mas em um universo de 20 idosos, pode ser que um tenha acesso à Internet”, diz Longhi.

Por outro lado, muitos integrantes da Uati têm esse privilégio. Eles acessam a Internet, com direito a aulas de informática. O eletricista aposentado Waldemir Ferreira Costa, 63 anos utiliza a rede freqüentemente. “Faço serviços bancários e pagamentos pela Internet e assim evito as filas”, diz.

Querino e Improta também são adeptas dessa tecnologia. “Utilizo a Internet para fazer pagamentos e ver e-mails”, conta Improta.

“Participo do orkut (site de relacionamentos) e tenho MSN (serviço que permite conversas on-line) e falo o com meu neto sempre. É mais fácil do que por telefone”, revela Quirino.

O celular, outro bem de consumo pesquisado, é utilizado por apenas 24% de idosos. “Os aparelhos são caros e fazer uma regarca também é difícil. Muitos não têm um celular realmente porque não têm condições”, aponta Longhi.

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Chefes de família

Entre as pessoas acima de 60 anos, 63% são responsáveis pelo sustento familiar, segundo dados do Instituto Brasileiro de Opinião Pública (Ibope) Mídia. É o caso de Manoel Ulisses do Carmo, 71 anos, feirante há 47 anos. De terça-feira a domingo, ele acorda às 4h da manhã, chega por volta das 5h30 na feira e volta depois do meio-dia. Por volta das 21h, já está dormindo.

A rotina é cansativa, mas necessária, conta Carmo. “A aposentadoria dá para o arroz e feijão, mas se minha família quiser comer um franguinho no domingo tenho que fazer mais alguma coisa”, diz.

Mariá Jane Ribeiro Longhi, diretora do Centro Social Urbano (CSU) da Bela Vista, aponta que a maioria dos idosos acima de 60 anos ajuda ou trabalha para garantir o sustento familiar.

“Eles sempre contribuem bastante, alguns tomam conta do neto para o filho trabalhar. Dependendo do caso, alguns chegam a chefiar a casa e trabalham em outro ramo para poder complementar o salário. Comprar um remédio, por exemplo, pode ser muito caro”, diz Longhi.

O casal de feirantes Constante Biondo, 76 anos, e Elzira de Carvalho Biondo, 68 anos, também trabalha duro para complementar o salário. “Isso é um suplemento porque só com a aposentadoria não dá para sobreviver”, confessa Constante. Ele monta sua barraca de grãos e legumes de segunda-feira a domingo em vários pontos da cidade.

Assim como Carmo, tem uma rotina puxada. “Realmente é cansativo, mas nós temos a vantagem que durante o período que ficamos na feira nos relacionamos com os amigos e dá para contornar essa situação”, diz.