11 de julho de 2026
Cultura

Artigo - TIM Festival: Urgentes e empolgantes - ainda que o som esteja baixo

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

É uma pena não poder dizer que nem mesmo a fina garoa atrapalhou a edição paulistana do TIM Festival, anteontem na Arena Skol do Anhembi, porque a frase implicaria perfeição ao evento. A garoa não incomodou; o som baixo, sim. Tão baixo que era impossível ouvir os shows da imensa fila, do lado de fora, ou mesmo da área mais afastada do palco, dentro do local. Em um festival de rock - especialmente - ao ar livre, é primordial, necessidade básica, que o público - estimado em 24 mil pessoas - ouça a música não só em seus ouvidos, mas batendo no peito.

Apesar disso, a noite foi dos Strokes e do septeto Arcade Fire, ambos com apresentações empolgantes e enérgicas. Porém enquanto os primeiros - atração principal do evento - já entraram com o jogo ganho, o Arcade Fire soube jogar, talvez por terem noção de que suas canções não são fáceis e serviriam melhor a um espaço reduzido. Bobagem. Munidos de instrumentos pouco comuns a um festival de rock, como violinos e um acordeom, a banda canadense mostrou seu espírito rock’n’roll com muito carisma. Alucinados no palco, eles trocavam de instrumentos e conseguiram puxar as canções da platéia, como “Power Out”, “Rebellion” e Wake Up”, enérgica em seu final.

Antes deles, Mundo Livre S/A e M.I.A. já haviam subido ao palco. Os que conseguiram chegar a tempo - ingressando no espaço por uma única entrada para 95% do público (havia uma entrada VIP) - também reclamaram do som. A cantora anglo-cingalesa mostrou seu grime - o novo rap inglês - com o caldeirão de influências, mas só conseguiu empolgar mesmo em “Buck Done Gun”, que tem sample de “Injeção” da carioca Deize Tigrona.

Caipiras e metropolitanos

O Kings Of Leon entrou no palco por volta de 22h, abrindo com “Molly’s Chambers”, seu maior hit - inacreditavelmente tocada em ritmo mais lento do que no CD. A partir daí, a sensação era que a apresentação do quarteto Followill, do sul dos Estados Unidos, estava com a carga pela metade. O vocal rasgante de Caleb e a guitarra enérgica de seu irmão Matthew, entretanto, não esfriaram em momento algum.

Todas as esperadas estavam lá, como “Red Morning Light”, “Wasted Time” e “California Waiting”, do primeiro CD, e “King of the Rodeo”, “Pistol Of Fire” e “The Bucket”, de “Aha Shake Heartbreaker”, lançado neste ano, tocadas de forma quase idêntica às versões de estúdio. No final, somente um “Nós somos o Kings Of Leon. Valeu, Brasil!”, e uma balada folk para fechar. É o jeito da banda, meninos com sotaque americano caipira, mas faltou alguma coisa.

O curioso é que a postura do KOL não é muito diferente da dos Strokes no palco, porém alguns detalhes colocam os rapazes de Nova York indubitavelmente entre as maiores e mais urgentes bandas da atualidade. O show, sem cenários nem efeitos, começa com uma explosão de luzes brancas e “12:51”, primeiro single do CD “Room on Fire”, seguida de “New York City Cops”.

As músicas dos Strokes são tiros de metralhadora e atingiram diretamente o público empolgado e que aguardava pelo show desde que o grupo surgiu, há alguns anos, nos programas de troca de MP3. Mesmo que as músicas sejam executadas quase iguais às versões dos álbuns, os vocais de um Julian Casablancas gripado não poupavam entusiasmo. Vieram “Soma”, “Automatic Stop”, “Is This It”, “Take It Or Leave It”, “Someday”, “The End Has No End” e “Last Night”, recepcionada com urros pela platéia em seus primeiros acordes e cantada até o final, de forma cinematográfica, quase surreal.

Ainda entraram no set list as novas boas “Juicebox” e “Heart in the Cage”, que devem estar em “First Impressions of Earth”, terceiro álbum dos playboys novaiorquinos, com previsão de lançamento para o próximo ano. Depois de quase uma hora, a banda deixou o palco e voltou para um bis destruidor, com “Hard To Explain”, “The Modern Age” e “Reptilia”. O público sabia que era a última, a banda também; o momento ficou registrado: Casablancas cantou sorrindo e a platéia do TIM Festival acompanhou dançando, pulando e cantando em êxtase, mais alto do que em todo o show, em todos os shows. Coube ao baterista Fabrizio Moretti, brasileiro, fazer a despedida, revigorante e para dormir muito bem: “Boa noite, meus irmãos brasileiros”.