Brasília - O senador Eduardo Azeredo (MG) decidiu renunciar à presidência nacional do PSDB. O anúncio oficial foi feito em discurso no plenário do Senado ainda ontem à noite. Ele é acusado de obter um empréstimo de R$ 700 mil do empresário Marcos Valério de Souza em setembro de 2002.
O prefeito de São Paulo, José Serra, substituirá Azeredo. Ele é o presidente de fato, mas está licenciado desde que assumiu a prefeitura, em janeiro deste ano. Serra não estava disposto a presidir a legenda porque teme receber os estilhaços da guerra entre PSDB e PFL, de um lado, e Palácio do Planalto e PT, do outro.
“Ele vai ter de assumir”, disse o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio Neto (AM). “Não se trata de querer, mas de dever”, completou. Serra aceitou assumir a presidência sob condições: atuará burocraticamente, desde que Tasso Jereissati (CE), que será eleito presidente em reunião do Diretório Nacional do partido dia 18 de novembro, e o atual secretário-geral, deputado Bismarck Maia (CE), toquem o dia-a-dia de fato.
A renúncia de Azeredo foi decidida numa reunião de mais de três horas com Jereissati e os senadores Virgílio, líder no Senado, e Sérgio Guerra (PE).
Durante a reunião, o ministro Jacques Wagner (Relações Institucionais) ligou para Azeredo, tentando amenizar o clima de guerra entre tucanos e petistas. Virgílio, porém, pediu o telefone e radicalizou. Na versão dele, Jacques começou a conversa falando que os dois partidos eram como “irmãos”. E ele rechaçou: “Só se for como árabes e judeus, que estão em guerra há dois mil anos”.
A tentativa de Wagner foi a de tirar o Planalto da linha de fogo, ao dizer que não tinha nada a ver com as investigações da CPI dos Correios sobre o envolvimento de Azeredo e de seu tesoureiro na campanha ao governo de Minas em 1998, Cláudio Mourão, no esquema Marcos Valério.
“E quem tem, então?”, teria reagido Virgílio, que discutiu com os demais tucanos centrar fogo nas campanhas do PT até 2002, para comprovar o uso de caixa dois. O dia começou com Sérgio Guerra dando entrevistas a rádios, televisões e jornais, negando que Eduardo Azeredo pretendesse renunciar à presidência do PSDB, algo que se confirmou logo após o almoço, com a previsão de um discurso em plenário.
Azeredo é conhecido pelo temperamento ameno e acusado pelos próprios companheiros de excessivamente cauteloso, mas sofreu pressão ao longo do dia para não amenizar o discurso. A intenção dos tucanos, com ajuda do PFL, é radicalizar contra o governo. “Não tenho compromisso com a aprovação de coisa nenhuma”, disse Virgílio. “Estamos cada vez mais integrados em nossos objetivos”, completou Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA).
Nota
Ontem, Azeredo divulgou uma nota à imprensa contestando reportagem da revista “IstoÉ” que, no fim de semana, informou que o senador pagou a seu ex-tesoureiro com dinheiro de Valério. Ao fazer sua defesa de que não sabia do caixa dois executado por seu ex-assessor, Azeredo acabou emprestando aos petistas um discurso em defesa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Disse Azeredo: “Na condição de candidato à reeleição para o governo do Estado de Minas Gerais em 1998, dediquei-me apenas à ação político-eleitoral”. E completou: “Só por má-fé ou hipocrisia, desconhece-se que assim ocorre praticamente em todas as candidaturas majoritárias e que as demais atividades da campanha são geridas por coordenadores de áreas”. O PSDB vem dizendo que o presidente Lula tinha conhecimento do caixa dois operado por Delúbio Soares.
Hoje haverá um embate direto entre governo e oposição com a acareação entre o chefe-de-gabinete e um dos homens mais próximos de Lula, Gilberto Carvalho, com os irmãos do ex-prefeito Celso Daniel, que acusam Carvalho de receber recursos de empresários que prestavam serviço na Prefeitura de Santo André para campanhas do PT, o que ele nega.