09 de julho de 2026
Articulistas

Versões, fantasias e êxtase


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O presidente Lula se imbui da onisciência de um deus todo-poderoso, condição que faz questão de exibir aqui e alhures, jamais dando a mão à palmatória ou se desculpando por gafes e impropriedades - como a cometida na Europa quando garantiu que a febre aftosa fora debelada, no mesmo instante em que novos focos da doença apareciam. E mais: sua preocupação, agora, não é com febre aftosa, mas com a “febre aviária”, doença que a farmacologia lulista introduz no lugar da gripe dos galináceos. Só mesmo o presidente não percebe que seu lastro de modéstia, um tanto escasso, está corroendo os juros do carisma que ainda detém.

Sua maneira de enfrentar a crise funciona como motor de propulsão de eventos negativos, deixando distante a hipótese de elevar o seu vetor de força para o nível do início do mandato. Basta conferir a relação com o próprio PT. Os petistas ameaçados de cassação, ao não aceitarem o conselho presidencial para uma renúncia coletiva, esticam o ciclo de tensão e pressão para março e abril do próximo ano, deixando Lula refém das circunstâncias.

Na frente econômica, apesar do exagerado otimismo presidencial, o affaire da febre aftosa ocasionará certo impacto (desemprego e queda de receita de exportações), somando-se ao rolo compressor do arco político sobre o ministro Palocci - previsível em ano eleitoral - e ao clima de instabilidade dos mercados internacionais. Na área social, o governo estufará o programa Bolsa-Família, na perspectiva de forrar o colchão dos pobres e desenvolver uma estratégia centrípeta de envolvimento (das margens para o centro). Nas searas centrais da sociedade, porém, o governo não terá frutos a colher. E nem a propaganda cosmetizada do PT, embalada para engabelar as massas, conseguirá reduzir a indignação das classes médias.

Quando dois discursos se opõem, parcela de ambos se desmancha no ar e se perde. Além disso, a posição de candidato favorito não é confortável a Lula. Cria expectativa. Qualquer queda na pontuação de intenção de voto, por menor que seja, causará mais impacto que a baixa de um adversário, por significar tendência de declínio. Por último, a antecipação de campanha é fator de desgaste. O presidente já entrou no jogo da reeleição, usando o palanque governamental para exibir a grandeza do seu governo, que acha o melhor dos últimos 30 anos. E mais, continua a se considerar o mais ético.

Cegos, o presidente e sua corte não notam o estrago feito pelo bando que dominava o PT. Só enxergam as nuvens emotivas que pairam sobre partes do território. Desprezam os anéis racionais que circundam os grupamentos médios. Esses anéis deram um recado forte, ao inflarem o balão do “não” no referendo. Se a campanha do “sim” procurou atingir o coração das massas, a campanha do “não” sensibilizou as cabeças de setores médios e organizados. O referendo mostrou que a sociedade é capaz de reagir e impor sua vontade. Menos que tiroteio entre pobres e ricos, o referendo foi uma disputa entre o voto emotivo e o racional.

Um Delúbio Soares, como PC Farias, é uma identidade para sempre. Ao contrário do que pensa, em três ou quatro anos, “tudo será esclarecido”, sim, mas não acabará virando “piada de salão”. Ele não será perdoado. Bem que poderia passar esse tempo copiando a máxima atribuída a Ulysses Guimarães: “Uma pessoa 99% honesta é 100% desonesta, porque não existe honestidade parcial.” Lição que também precisa ser apreendida pelo nosso presidente.

O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político