Quem viveu os anos 60 não pode deixar de reconhecer a importância da heróica figura de José Dirceu. Líder estudantil em São Paulo, inspirava a todos a saírem às ruas de peito aberto contra o regime autoritário que acabara de envolver o País com sua sinistra cortina de autoritarismo e repressão. Veio a transição “lenta e gradual” para a democracia, que foi de 1982 a 1990, quando tivemos a primeira eleição livre para presidente. Collor se elege, vencendo Lula. Deu no que deu. O impeachment de Collor foi o primeiro teste para consolidação da incipiente democracia que se instaurava. Passamos no teste e aí veio a democracia. Mas a esquerda ainda haveria de esperar o governo transitório de Itamar, vice de Collor, e mais dois governos do PSDB, com Fernando Henrique Cardoso.
Finalmente, em 2002, chega Lula ao poder, tendo por trás como principal articulador da campanha o José Dirceu. Foi um momento catártico para esquerda. Até Fidel (outro ex-herói) veio para a posse, em sua plena decrepitude física, política e histórica. Ter um operário no poder em um País como o Brasil foi um importante balizamento para as forças de esquerda, socialistas, sindicalistas e progressistas em geral. Um fio de identificação com os movimentos operários europeus, com o marxismo e com as utopias socialistas que os moveram ao longo dos séculos 18, 19 e 20.
Irrompe certo lampejo de idealismo, onde o determinismo histórico ressurge em favor dessas forças, com possibilidade de transformações sociais reais, mesmo dentro de um modo de produção capitalista. Pensam: “Se a história se coloca a nosso favor, somos seus agentes e, para cumprir nossa missão tudo é válido, inclusive inverter a ética, revirando-a pelo avesso, fazendo acordos até com diabo, de chifres e pés de cabra”. Só que, nesse caso, o diabo canta ópera e é grande orador.
Acontece que não estamos em 1917, ano em que Lênin chegou ao poder na Rússia, embora algumas mentes, ilustradas até, estejam para sempre aprisionadas no passado, quando a ideologia marxista fez os seus efeitos transformadores, para o bem e para o mal, na sociedade e na economia.
Uma lição que os ideólogos e “utopistas” de esquerda devem aprender é que não se faz mais política de transformação social fora do ambiente democrático moderno. Essa é a grande lição após tudo que despencou com a queda do muro de Berlim, em 1989: a sobredeterminação da pluralidade democrática sobre as forças políticas. Se a agenda política da esquerda no Brasil é hoje ordenada por certo humanismo populista, às vezes infantil, megalomaníaco, tem-se como contraponto, a agenda liberal de direita, nem sempre tão humanista assim, mas pragmática e objetiva quanto à produção da riqueza, sem necessariamente distribuí-la.
Recomenda-se a primeira, a seguir o exemplo do velho Marx, que se enfurnou no Museu Britânico para estudar o capitalismo da época. A lógica que o moveu foi muito simples: se queres transformar algo em sua essência, tens que compreendê-lo primeiro. Se o núcleo duro do capitalismo moderno é inacessível, revogem-se as utopias, com urgência, ou então mudem de partido, como na prática já fez o Palocci, para sorte da economia. Na política externa, a lição seria compreender as forças econômicas globais e tentar inserir o Brasil, de forma competitiva, no cenário do comércio internacional. Ficaram muito aquém do que a história (ou o acaso?) os reservara. O trauma mais grave, entretanto, é que por muito tempo as forças progressistas serão vítimas da zombaria da direita que terá motivos reais para tentar convencer o eleitorado de que é tudo a mesma “coisa”, quando não é.
O autor, João Rego, é psicanalista e mestre em ciência política