09 de julho de 2026
Bairros

Caramujos voltam a aparecer em Bauru

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

Ao acordar ontem pela manhã, depois da chuva forte de anteontem, a dona de casa Clarice dos Santos Roberto abriu a porta da cozinha e deparou-se com três caramujos gigantes africano, que tentavam entrar na residência. Depois de ter enfrentado a infestação do molusco no final de 2004 e início deste ano, ela não se intimidou: com uma sacola plástica protegendo as mãos, ela recolheu os animais e os colocou em um saco de lixo. Como ela, moradores de outros bairros também estão enfrentando a volta do molusco, que gosta de ambientes úmidos e quentes.

“Choveu e está quente. É o momento deles saírem dos esconderijos”, explica Carlos Barbieri, secretário municipal do Meio Ambiente, que já está dando início a ações para coletar os molucos na cidade. “Como no final do ano passado e início deste, vamos fazer mutirões de coleta nas regiões mais infestadas. Aliás, já fizemos uma coleta recentemente”, conta.

Moradora na Vila Santista, Clarice afirma que tem nojo dos caramujos. “É um bicho asqueroso, mas prefiro recolher do que deixá-los pelo quintal, com risco de entrarem em casa”, argumenta. Um morador do Jardim Europa, que preferiu não ter seu nome divulgado, relata que ontem também recolheu caramujos em quintais baldios ao lado de sua casa.

“Acho que catei uns 30, mas tinha muito mais. Coloquei tudo dentro de uma sacolinha plástica e amarrei a boca. Do jeito que está, se não limparem os terrenos e continuar aparecendo caramujo, vou ter que parar de comer as verduras da horta no meu quintal. Já liguei na fiscalização da prefeitura, mas os terrenos continuam com mato alto”, reclama. Além do mato, há lixo no local, o que torna o ambiente propício para o molusco se esconder.

Apesar de ser hospedeiro de dois vermes, até o início do ano, quando Bauru estava infestada pelos moluscos, não havia registro de doenças transmitidas pelos animais. O problema maior é o incômodo que o caramujo causa, pois ele sai da terra, escala muros e paredes e pode entrar nas residências, além de atacar plantas para se alimentar.

No início deste ano, a estimativa da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) era que existiam cerca de 15 milhões de caramujos gigantes africano abaixo e acima da terra em Bauru, o que dá 44 animais por habitante. E Barbieri alerta que o número pode ser ainda maior neste verão. “Limpamos muitos terrenos, inclusive raspando a terra para retirar os caramujos que estavam nos esconderijos e os ovos. Mas a tendência é aumentar porque um único animal pode pôr até 200 ovos”, frisa.

Latência

O caramujo pode ficar em estado de latência por dois anos sob a terra. Mas Barbieri ressalta que o combate ao molusco depende da população. “O caramujo cria em terreno baldio, em lixo. É aí que a população pode ajudar - limpar os terrenos e recolher os caramujos, que devem ser colocados em sacos plásticos e levados às regionais administrativas. De lá, eles são levados ao aterro sanitário”, diz.

Mas Barbieri tem uma boa notícia. “Estamos (a Semma) pesquisando sobre o caramujo juntamente com a Universidade de São Carlos e a Unesp de Bauru (Universidade Estadual Paulista). A USC (Universidade do Sagrado Coração) também está estudando o caramujo. Esperamos chegar logo a um novo método de manejo do molusco, mais eficiente que o atual”, conta, sem dar detalhes porque as pesquisas ainda estão em andamento.

Até agora, o método usado em Bauru era despejar os caramujos coletados em uma vala séptica do aterro sanitário. No local, são macerados por um rolo compressor e, em seguida, polvilhado por cal virgem sobre os animais, para depois serem enterrados.

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Vermes

Um dos vermes que se hospeda no caramujo gigante, o Angiostrongyus costaricensis, pode provocar fortes dores abdominais, febre, perda do apetite e vômitos, podendo culminar com a perfuração do intestino. O outro (Angiostrongyus contonensis) é causador de um tipo de meningite, que ocorre quando o verme se aloja no sistema nervoso central do paciente.

Além de causar a inflamação das meninges, pode levar à cegueira, paralisia e, em casos extremos, à morte. Os vermes podem estar tanto no interior do muco do caramujo quanto no rastro de secreção que ele expele para andar. Por isso, é preciso proteger as mãos ao coletar o molusco.

No ano passado, a infestação em Bauru levou a cidade a ser a primeira no Estado de São Paulo a realizar uma campanha de combate ao molusco em parceria com o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Atualmente, a maior ameaça do molusco é à agricultura, já que ele ataca as plantas de folhas tenras e caules macios para se alimentar, e ao meio ambiente.

Da Redação