08 de julho de 2026
Ser

De lagartasa borboletas

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 7 min

No filme “Confissões de Schmidt” (2002), após o enfarto repentino de sua esposa, um empresário aposentado interpretado pelo ator Jack Nicholson precisa lidar com a difícil fase do luto. Nesse período, enquanto se descuida totalmente da aparência, o protagonista se entrega a um drama pessoal que o leva a refletir sobre o sentido da vida.

Assim como na ficção, conviver com a dor pela perda de um ente ou amigo querido talvez seja uma das piores experiências vividas pelo ser humano. Visando apoiar pessoas enlutadas a enfrentar e lidar com essa difícil fase, um grupo de voluntários da sociedade civil criou a Casulo - Associação Brasileira de Combate ao Luto.

Idealizada pela pedagoga paulista Alice Lanalice, que perdeu sua filha – na época com 25 anos – em um trágico acidente automobilístico, a entidade foi fundada em setembro de 2001 e possui sede em São Paulo. Aberta a todas as religiões e sem fins lucrativos, a entidade presta serviços de auto-ajuda a pessoas de diversas cidades do País.

Em Bauru, a psicóloga Fátima Montenegro Turtelli Pighinelli, 54 anos, tomou a frente para a implantação do projeto Casulo, cuja sede está instalada na paróquia Sagrada Família, no Jardim Marambá do Sul. O objetivo é realizar reuniões de auto-ajuda semanais, que já contam com espaço reservado em uma sala da igreja (confira outros detalhes sobre o projeto no texto abaixo).

Embora já esteja com tudo preparado, o projeto ainda não deslanchou na cidade por falta de interessados. “O próprio tema faz com que as pessoas tenham dificuldades e resistências. Algumas delas preferem ficar isoladas a falar sobre o luto porque acham que assim vão se sentir pior”, aponta Pighinelli, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade.

Formada em psicologia pela Fundação Educacional de Bauru, atual Universidade Estadual Paulista (Unesp), ela trabalhou vários anos na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). Desde 2004, atua como psicóloga do Instituto Médico Legal (IML).

A experiência de Pighinelli em conviver com a dor e o sofrimento humano estimulou-a a montar uma sede da Casulo em Bauru. Se depender de seu empenho, a iniciativa ajudará centenas de pessoas a compreender as emoções e os sentimentos da perda, passos importantes para a superação do luto. Esses e outros assuntos foram temas da entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - Qual é o objetivo da associação Casulo?

Pighinelli - É um grupo de auto-ajuda para auxiliar pessoas que perderam entes queridos a passar por essa fase e facilitar esse período. O trabalho ajuda a lidar com a sensação de perda. É um projeto voluntário que pretendo implantar em Bauru. Estou atuando nessa atividade não como psicóloga, mas como uma pessoa leiga e coordenadora do grupo, que é voluntário. Para isso estou recebendo incentivos do diretor do IML, Ivan Segura.

JC – Por que a senhora decidiu trazer esse programa nacional para Bauru? O trabalho no IML contribuiu de alguma forma para essa iniciativa?

Pighinelli – Sim. De um ano para cá estou no IML e venho observando como é difícil lidar com a perda de parentes, principalmente quando se tratam de mortes repentinas, como acidentes, ou casos violentos.

JC – Como funcionará o atendimento?

Pighinelli – Conversei com o padre Júnior, da paróquia Sagrada Família, e ele me cedeu uma sala para realizar as reuniões. O grupo é de auto-ajuda e naquela fase de sofrimento e de tristeza uns vão ajudar a consolar os outros, compartilhar sentimentos e tentar superar esse período. Os encontros seriam a cada três ou quatro semanas, em períodos diurnos ou noturnos, conforme a disponibilidade das pessoas interessadas.

JC – Além da senhora, o trabalho contará com a ajuda de outros voluntários?

Pighinelli – Em princípio vou trabalhar sozinha. Mas meu objetivo é implantar o projeto no grupo para que depois ele vá se multiplicando para outros bairros e depois para outros municípios.

JC – Apesar de estruturado, o projeto ainda não deslanchou. Por quê?

Pighinelli - Não apareceram pessoas interessadas. Algumas já telefonaram para a secretaria da igreja, mas desde setembro já estive lá durante cinco semanas e não apareceu ninguém. O padre Júnior está divulgando nas missas. E assim como na Sagrada Família, na comunidade São João, próximo à Vila Vicentina, também foram colocados cartazes sobre o grupo.

JC – A falta de procura é uma forma de resistência das pessoas em lidar com o luto?

Pighinelli – Sim, pode ser. O próprio tema faz com que as pessoas tenham dificuldades e resistências. Algumas preferem ficar isoladas do que falar sobre o luto porque acham que assim vão se sentir pior.

JC - Em geral, quanto tempo uma pessoa passa enlutada?

Pighinelli – Varia de pessoa para pessoa, mas teoricamente e de acordo com a literatura, esse período é de um ano.

JC – Quais são as reações mais comuns do indivíduo em luto?

Pighinelli – São várias. Ele pode ter insônia, falta de apetite e pode até entrar em depressão.

JC – A senhora já passou por alguma perda? Como foi essa experiência?

Pighinelli – Sim e foi muito dolorosa. Acredito que a pior dor que existe para o ser humano é perder alguém de quem gostamos.

JC – Existe alguma diferença entre mulheres e homens ao lidar com o sofrimento?

Pighinelli – O luto é democrático e cada um sabe a dor que sente. A perda em si é um sentimento universal.

JC – E em relação às crianças, como os pais devem lidar com o luto? É aconselhável levá-las ao velório?

Pighinelli – Cada caso é um caso, mas é preciso haver um preparo. Em relação aos velórios, depende de como a criança é levada e preparada para a ocasião.

JC – Quais alternativas podem ser adotadas para aliviar a sensação de perda?

Pighinelli – Acredito que é preciso formar uma rede de apoio: a família, em primeiro lugar, e os amigos vão ajudar muito as pessoas enlutadas durante essa fase. A fé e a religião também ajudam.

JC – Além de irem ao velório e ao enterro, como os amigos podem ajudar o indivíduo durante o período de luto?

Pighinelli – O amigo precisa mostrar e demonstrar que está sempre disponível, para qualquer hora em que a pessoa queira chorar, precisar conversar ou lamentar a perda.

JC – Por que a escolha do nome Casulo para a associação?

Pighinelli – Ele é uma simbologia do processo de transformação, em que a lagarta se torna uma borboleta. O nome traduz a superação do sofrimento e da perda.

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Auto-ajuda

Uma das principais funções do projeto Casulo é unir pessoas que vivem a mesma dor e querem compartilhar experiências, segundo informações extraídas do site da associação (www. grupocasulo. org).

Para isso, a entidade oferece um grupo terapêutico formado por profissionais da área de psicologia. As reuniões têm horário flexível e são de caráter informal. Os encontros podem ser realizados nas casas das pessoas interessadas, igrejas ou entidades.

Outra atividade da Casulo é o Serviço S.0.S., socorro emergencial em caso de perda recente. Depois do serviço, a entidade convida os envolvidos a participar das atividades regulares. A associação traz ainda eventos, como seminários, congressos, workshops, palestras, debates, mesas-redondas, além de caminhadas e viagens.

A metodologia dos grupos de auto-ajuda foi inspirada no trabalho da associação A Nossa Âncora, de Portugal, entidade parceira da Casulo.

Na reunião de auto-ajuda, o grupo se encontra duas vezes por mês. As sessões têm uma hora e meia de duração e contam geralmente com a presença de cinco a 12 pessoas.

O coordenador do grupo é, preferencialmente, alguém que já passou por uma experiência de luto, sendo capaz de acolher as pessoas e de se mostrar sensível aos sentimentos dos todos.

• Serviço

Outras informações sobre o projeto Casulo em Bauru podem ser obtidas na secretaria da paróquia Sagrada Família, localizada na rua Luiz Bassoto, 4-25, Jardim Marambá, ou pelo telefone (14) 3203-7943.

Da Redação