Pelo oeste do Estado de São Paulo, a muamba chega pelas estradas. Do Paraguai para a região de Ourinhos e dali para São José do Rio Preto, Brasília (e o norte e nordeste) ou São Paulo. Pelo sul, a entrada se dá pelos portos, em especial o de Santos. No máximo 5% da mercadoria é revistada. Na Capital, o produto nem precisa chegar: ele é cada vez mais produzido no Brasil, advertem os especialistas em pirataria. E a venda - em escala - não ocorre somente nos camelôs, como se pensa, mas nos shoppings e lojas. Qualquer shopping.
A pirataria em São Paulo, segundo o secretário-executivo do Conselho Nacional de Combate à Pirataria, Márcio Gonçalves, segue a proporção do Produto Interno Bruto (PIB). “Se São Paulo tem um terço do PIB do País, um terço da pirataria ocorre no Estadoâ€, resume. Centro distribuidor e comprador, o Estado apreendeu entre janeiro e 22 de setembro 3,06 milhões de produtos pirateados.
Nos últimos anos, tornaram-se rotina as operações de apreensão, tanto na Capital quanto no Interior do Estado. Neste ano, foram 9.877 somente entre janeiro e agosto. Dados do Ministério da Justiça mostram que o Estado responde por 25% dos valores movimentados pelos produtos apreendidos entre 2003 e 2005 no País. Foram R$ 457 milhões em 11 operações paulistas, frente a um total de R$ 1,8 bilhão em 85 operações ações feitas nas dez regiões fiscais do País. Ou seja: as apreensões paulistas são maiores.
“Em São Paulo temos um problema sérioâ€, adverte Mauro de Brito, da Receita Federal, chefe da Divisão Nacional de Combate ao Contrabando e Descaminho. “O Estado está se tornando um centro distribuidor de produtos atacadistas.†Os pontos mais óbvios são as regiões das ruas Santa Ifigênia e 25 de Março, no Centro.
Mas os especialistas em combate à pirataria lembram que não se trata mais apenas de receber produtos do Exterior. Com a informatização, produzir um CD pirata, por exemplo, ficou muito fácil. E o mercado existe.
A compra dos produtos não ocorre apenas nos camelôs. “Em shoppings de luxo há entre 50% e 60% de mercadoria informalâ€, diz Mauro de Brito. Ele cita como exemplo de produto não legalizado as câmeras digitais nas lojas de informática. “Em qualquer ponto comercial tem produto pirata, mesmo no comércio com a aparência de formalâ€. A Receita confisca o produto em 99% dos casos por questões documentais. “Mas temos certeza que metade é falsificadaâ€, afirma Brito.
Segundo Francisco Renan Proença, da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), a briga da pirataria é contra “cachorros grandesâ€. Os especialistas atestam que acabou a “fase romântica†do contrabando, aquela representada por um simples sacoleiro que ia individualmente ao Paraguai para ajudar no sustento da família. Agora, tudo está dominado pelo crime organizado - como as máfias chinesa, coreana, vietnamita e árabe.
“Se não tomarmos cuidado, vamos virar um grande Paraguaiâ€, diz o empresário. “Não é à toa que a maioria das apreensões é de São Paulo para baixo.â€
Depósitos cheios
Segundo o tenente Giovani Bosco, da Polícia Rodoviária Federal, o efetivo da corporação, 8.500 homens, é insuficiente para o combate nas estradas. A maior parte do comércio feito por ônibus por Foz do Iguaçu foi barrada, mas o problema ainda persiste. “Em São Paulo há dificuldade no combate por conta da capilaridade das estradas vicinaisâ€, informa.
Um dos colegas de Bosco, o inspetor Regisvan Soares, detalha a dificuldade geográfica. “A principal entrada do contrabando via Paraguai é a região de Ourinhosâ€, explica. Ali, somente um trecho de menos de 10 quilômetros é federal. “Depois dele, ramificam por várias rodovias estaduais. A fiscalização da PM é precária nessas rodovias. São trechos muito extensos e bem ramificados.â€
Soares conta que os problemas não param por aí. “Outra dificuldade é a estrutura da Receita nessa regiãoâ€, diz. “Os depósitos são pequenos e superlotados. Há pouco pessoal para conferir material e não há segurança para vigiar ônibus.â€
Mauro de Brito, da Receita, confirma. “Noventa por cento dos depósitos estão cheios. Cobram-nos por não encaminharmos todos os casos à Justiça. Mas se fizermos isso com todos os processos não faremos 10% de nosso trabalhoâ€.
Os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro foram os primeiros a ter Delegacias Especializadas na Repressão aos Crimes contra a Propriedade Intelectual.
*Correspondente do JC em Brasília