09 de julho de 2026
Nacional

Guerra por comando apavora Rocinha

Por Mario Hugo Monken | Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

Rio de Janeiro - A morte do chefe do tráfico na favela da Rocinha - Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-Te-Vi- deflagrou guerra pela sua sucessão. A polícia tem informações de que pelo menos quatro traficantes morreram na madrugada de ontem na disputa pelo controle dos pontos de venda na comunidade, mas seus corpos ainda não foram encontrados. Entre os mortos estaria Orlando José Rodrigues, o Soul, apontado como o sucessor de Bem-Te-Vi, de quem era cunhado, no comando da venda de drogas na Rocinha (São Conrado, zona sul do Rio).

A polícia não havia confirmado oficialmente as mortes até as 18h30 de ontem. Moradores e lideranças comunitárias da Rocinha, no entanto, afirmam que o número de mortes pode chegar a 15 e que alguns corpos foram retirados da favela em uma Kombi, informação também não confirmada pela polícia. Houve um intenso tiroteio na favela volta das 4h na localidade conhecida como Valão.

Um dos líderes comunitários afirmou ter visto, pela manhã, o corpo de um traficante conhecido como Pequeno, que teria morrido enforcado. Pequeno, segundo moradores, teria alugado o apartamento para os policiais que participaram da operação que resultou na morte de Bem-Te-Vi. A Secretaria de Segurança Pública nega que Pequeno tenha alugado o imóvel. Segundo a pasta, o proprietário não mora na favela. Os outros mortos, segundo os moradores, seriam traficantes conhecidos como Soldado e Lelé. Soldado era um dos seguranças de Bem-Te-Vi.

Em conversas de radiotransmissores captadas ontem, traficantes da Rocinha disseram que Soul estava morto. “Esse caiu porque estava de olho grande”, afirmou um deles. A polícia investiga se a nova guerra foi provocada por uma tentativa de Soul de aplicar um “golpe de estado”, ou seja, tomar o controle do tráfico de drogas de Bem-Te-Vi, antes de sua morte. Soul, ainda segundo as investigações, teria se aproximado de líderes da facção criminosa Comando Vermelho (CV), inimigo da Amigo dos Amigos (ADA), à qual pertencia Bem-Te-Vi.

Ao descobrir isso, Bem-Te-Vi teria encomendado a aliados o assassinato de Soul, mas morreu antes do cunhado. Na madrugada de ontem, traficantes conhecidos como Antônio Francisco Barbosa, o Nem, e Joca, que eram aliados de Bem-Te-Vi, teriam comandado a operação que matou Soul. Nem seria o novo chefe do tráfico na Rocinha. Moradores afirmaram que Soul teria desviado dinheiro e armamento de Bem-Te-Vi, que foi morto durante operação da Polícia Civil na madrugada de sábado na Rocinha.

Ele estava escoltado por 12 seguranças com fuzis e portava duas pistolas douradas, além de um bracelete de ouro. O traficante levou quatro tiros. Chegou a ser levado para o hospital Souza Aguiar, onde morreu. Tinha 29 anos. Comandava o tráfico na Rocinha desde 2004, após a morte do antigo líder, Luciano Barbosa da Silva, o Lulu. A Polícia Civil acha que a morte de Bem-Te-Vi pode desencadear guerras entre traficantes em outras regiões da cidade.

Uma das ameaças é no complexo de São Carlos, no Estácio (zona central), onde ADA e CV disputam o controle do tráfico nos morros. Outra é no Vidigal, vizinho à Rocinha, que está dividido entre as duas facções. Ontem, houve um morto no Vidigal em operação policial. O comércio na Rocinha funcionou normalmente ontem. O clima, no entanto, era de tensão.

A Polícia Militar (PM) enviou cerca de 150 homens para patrulhar a favela e fazer busca pelos corpos. Durante as incursões, os traficantes soltaram fogos para anunciar a presença dos PMs. No início da tarde, o comandante do 23.º Batalhão (Leblon, zona sul), tenente-coronel Norberto Carlos Mendes, informou que não iria continuar com as incursões, porque a corporação não tinha uma informação concreta de onde poderiam estar os corpos.

Para ele, uma operação à luz do dia poderia trazer riscos para os moradores em razão da possibilidade de tiroteios em áreas de grande circulação de pessoas. Ainda à tarde, um adolescente de 17 anos, que seria traficante, tentou atirar uma granada em PMs que faziam patrulhamento na favela mas a bomba explodiu antes. Ele perdeu uma das mãos.

Ontem, mesmo com o clima tenso, um casal de turistas russos parou para fazer fotografias na entrada da favela. O advogado Andrey Ivanov, 28 anos, disse não ter medo do conflito por estar acostumado com enfrentamentos semelhantes em seu país. “Na Rússia, há muita guerra entre quadrilhas”, afirmou.

No final da tarde, equipes de reportagem foram barradas por “olheiros” de traficantes quando se dirigiam ao apartamento onde policiais civis traçaram a estratégia para capturar Bem-Te-Vi. Um dos traficantes disse aos jornalistas que poderia haver tiros de fuzis. Os jornalistas conseguiram entrar no imóvel após a ajuda de líderes comunitários.

____________________

Soul era ‘tesoureiro’

Rio de Janeiro - Apontado como o sucessor de Bem-Te-Vi, Orlando José Rodrigues, o Soul, 27 anos, que, segundo a polícia, pode ter sido uma das vítimas de ontem da guerra da rocinha, era o responsável pela contabilidade da quadrilha. Administrava, semanalmente, cerca de R$ 400 mil com a venda de cocaína na favela. Tem mandado de prisão desde agosto, sob acusação de tráfico de drogas.

Ele era o responsável pelo controle da parte alta da Rocinha quando Bem-Te-Vi ainda estava vivo e também negociava com fornecedores a chegada de cocaína à Rocinha. Mantinha contatos com o traficante paulista Ronaldo de Freitas, o Naldinho. Antes mesmo da nova guerra ser deflagrada na Rocinha, moradores afirmavam temer um confronto porque Soul não era tão querido como Bem-Te-Vi. Diferentemente do cunhado, que gostava de ostentar armas douradas e organizar festas, é descrito como de personalidade mais comedida, mas rigoroso com seus subordinados.

Soul foi freqüentador de boates e academias de jiu-jitsu. Ele chegou a completar o ensino médio, fez cursos técnicos e se matriculou em uma faculdade de administração.

Folhapress