03 de abril de 2026
Tribuna do Leitor

Um templo e um personagem


| Tempo de leitura: 3 min

Reza o mandamento da boa mesa: um restaurante para ser freqüentável, deve ter comida honesta, ambiente aconchegante e atendimento solícito. O último quesito pesa sempre mais, pois garçom chato, mal-humorado, suado, nem pensar. Seja pela gentileza, seja pelo carisma, o barbudo Fernando continua imbatível por aqui, com o seu sempre lotado Templo Bar.

Freqüento o Templo desde os meus tempos de universidade. De lá para cá, pouca coisa mudou, pois inalterável é a proposta, que mantém o bar (ou seria restaurante?) como top de linha, de quem procura música ao vivo, boa comida e ambiente diferenciado, fugindo do padrão pé-sujo. Quem vem uma vez, acaba retornando com uma certa assiduidade.

Quem conhece um pouco dos bastidores do lugar, fica adepto de carteirinha. Eu já fui um deles e se hoje diminui a freqüência, o culpado é o combalido bolso, a necessidade de acordar cedo no dia seguinte e os compromissos no lar. Vou quando posso, mas continuo acompanhando as histórias por lá acontecidas.

A última me foi contada pelo amigo Sivaldo. Bauru recebeu um grupo de artistas pernambucanos, na Semana Arte Sem Barreiras. Queriam beber algo no final do espetáculo e o indicado foi o Templo. Foram nuns 20 e com recursos limitados, pedem algo simples e algumas cervejas. Fernando se interessa pelo grupo, percebe o que estão fazendo na cidade e pede permissão para um agrado da casa. Todos são surpreendidos com as melhores iguarias, numa fartura de dar a gosto.

Quando vão acertar a conta são novamente surpreendidos com a fala do proprietário: “Se querem discutir, vamos levar horas nisso. Trata-se de cortesia da casa”.

Diante disso, não posso deixar de lembrar algo acontecido com minha trupe universitária, nos idos dos anos 80. Recebemos na Fafil, hoje USC, uns músicos andinos, que nos maravilharam. Queríamos estender aquela rara apresentação e baixamos no Templo. Rolava por lá uma festa de aniversário do arquiteto Jurandyr Bueno Filho. Fernando sentiu o clima, integrou os grupos e nem quis ouvir nossa proposta, sugerindo a sua: “O jantar deles é por minha conta e as bebidas vocês rateiam”. Ficamos até não poder mais.

Esse é o Fernando, promotor de uma fervura cultural de qualidade e de elevada temperatura na cidade, nos quesitos comes e bebes (seu filé é indescritível) e no seleto gosto musical do seu piano bar. Durante a semana mantém o público universitário e os da noite, sempre com novidades musicais de fino trato e nos finais de semana, abre quase que exclusivamente para a nata da cidade. Concilia as duas coisas maravilhosamente, o que o faz permanecer aberto e sempre cheio, num segmento tão sujeito às constantes intempéries.

Ele sabe muito bem o caminho que deve trilhar e dele não se afasta. Tem quem defenda, que já seja merecedor de um Título Benemérito e até estátua em praça pública (comungo dessas idéias). Aldir Blanc, nosso poeta mor dos botequins, tem uma frase, que define muito bem os bares nesse estilo: “Buteco é Templo e lá se desenvolve a mais pacifica e prolífica das atividades humanas: jogar conversa fora”. E cada vez mais estamos necessitados de locais como esses. Bauru, felizmente, possui alguns assim. E eu assumo, que no dia em que parar de beber e de escrever - em turnos separados, é claro - morrerei.

Henrique Perazzi de Aquino