08 de julho de 2026
Articulistas

A cirrose amazônica


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O pulmão do mundo começa a apresentar sinais de cirrose. A exuberante floresta tropical - a maior que restou no planeta após tantos séculos da “civilização” predatória do homem - está registrando o menor índice de vazão dos seus mananciais em 25 anos de medição. A Amazônia está secando. E as cenas que se vêem na pobre cobertura da imprensa - sobre um problema que mereceria atenção muito maior - são terra rachada, infinidade de peixes mortos em águas escassas, animais definhando, um ecossistema riquíssimo se esvaindo.

Depois dos furacões Katrina, Rita, Wilma, Alfa, Beta, que têm marcado um recorde histórico de ventos em fúria na Terra, agora a mais rica das florestas se mostra doente, atingida pelas mãos destruidoras do homem, que varre suas árvores com correntes puxadas por tratores, arrancando sem piedade um verde vital para nossa sobrevivência, um verde que dará lugar ao enorme deserto, morto.

É a resposta da natureza que, ao contrário do que sempre pensou a humanidade, não existe para servir a homens e mulheres, mas para abrigá-los num contexto muito mais diverso, onde a regra fundamental para a vida é o equilíbrio entre as espécies. Pena que o homem-moral, o homem-dogma, o homem-níquel, nunca entendeu essa regra e sempre se achou o gerente do planeta, com plenos poderes para interferir onde bem quisesse, para poluir o ar, a água, o solo, para confinar vidas e transformá-las numa escala industrial da matança, para satisfazer os seus caprichos mais bizarros, seus sabores, seus mimos, sua ambição, seu ego, seu luxo e seus supérfluos.

A humanidade sabia que a resposta estava por vir. A surpresa é que ela veio mais cedo do que o esperado. O efeito estufa já é uma realidade e chegaram os primeiros de muitos furacões que virão. Virá o aumento do nível do mar. Virá o fim da Amazônia e a explosão do gás carbônico, que aumentará ainda mais o efeito estufa, num ciclo da morte, sem volta. É o resultado das “vistas grossas” que se fizeram diante dos alertas. É o resultado das petrolíferas protegidas por George W. Bush. É o resultado final da nossa passagem por esta bela esfera azul.

A cirrose amazônica é apenas um dos efeitos, uma das provas de que já era tempo de o homem deixar de ser o sanguessuga do planeta. A Terra não nos suporta mais e está reagindo à nossa agressividade. Não conseguimos enxergar o que sempre foi óbvio: a natureza é infinitamente mais forte que nós. Somos frágeis seres de duas patas com um pouco de raciocínio e muito de ambição. Seres que mal saberão sobreviver bastando que se partam os fios da nossa energia elétrica.

O autor, Marcos Brogna, é jornalista graduado pela Fundação Cásper Líbero e editor-chefe do jornal O Liberal, de Americana-SP - e-mail: marcosbrogna@oliberalnet.com.br