09 de julho de 2026
Articulistas

Galos, noites e quintais


| Tempo de leitura: 3 min

Belchior é, talvez, um dos maiores poetas da música brasileira pós anos 1960. Surgiu com o “pessoal do Ceará”, que também revelou Amelinha, do “Frevo Mulher”; Ednardo, do “Pavão Misterioso”; e Raimundo Fagner, que dispensa comentários. “Eu sou da lata do lixo. Eu sou do luxo da aldeia. Eu sou do meu Ceará!”, cantavam. Mas logo se dispersaram...

Não me liguei em seus destinos, até que, um dia, ouvi Roberto Carlos cantando uma música - que Elis também gravou - que era irresistível: impossível de não ser ouvida... Em ritmo de acalanto, doce, amargo, quase tristonho, dizia: “As velas do Mucuripe vão sair para pescar. Vão levar as minhas mágoas, pras águas fundas do mar...”. Era uma obra-prima de Belchior e Fagner, com frases portadoras de uma pureza, infelizmente, quase extinta em nossos autores mais recentes: “Calça nova, de riscado; paletó de linho branco, que até o mês passado, lá no campo ainda era flor. Sob o meu chapéu quebrado, um sorriso ingênuo e franco, de um rapaz, moço encantado, com 20 anos de amor”. Mas essa pureza de Belchior escondia uma rebeldia de sons e palavras que, quando ele queria, cortava como faca ou navalha!

Elis Regina, a “Pimentinha”, encantou-se com seus rocks. Soltou a voz e lançou-o ao estrelato. Ela interpretou suas canções magistralmente, sem dúvida, mas ele - com sua voz rouca, grave, nasalada, quase rude e seu indefectível bigode - o fazia de forma inigualável. Aguardava a introdução, invariavelmente, de cabeça baixa - concentrado - para, depois, avançar uma perna e começar a cantar, como se estivesse dando a partida para uma corrida de fundo... Do fundo da alma! Entremeava frases longas com cortes rápidos. Parecia deixar a música correr para, depois, alcançá-la. Coisa que só o autor sabe, e pode, fazer. Suas músicas foram, e ainda são, gravadas por outros, mas, em minha opinião, ele continua sendo seu melhor intérprete!

Dava-se ao requinte de fazer duas letras! Vanuza gravou “Paralelas”, com o refrão: “E as borboletas, do que fui, pousam demais, por entre as flores do asfalto em que tu vais”; enquanto ele, preferiu: “Como é perversa a juventude do meu coração, que só entende o que é cruel e o que é paixão”. Nessa mesma canção, ele sentenciou: “E no escritório, em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor”, e extravasou: “No apartamento, oitavo andar, abro a vidraça e grito quando o carro passa: teu infinito sou eu”.

Belchior era capaz de falar da “Hora do Almoço”, de “Galos, Noites e Quintais”, do “Medo de Avião” e, até, de seu cão, sem cair na pieguice: “Populus, meu cão... O escravo indiferente, que trabalha e, por presente, tem migalhas sobre o chão...”. De repente, Belchior sumiu! As lojas parecem só ter coletâneas de sua obra. Nas rádios, só ouvimos suas músicas em “flash backs”. Na TV, sua presença é muito rara...

Será que ele perdeu a inspiração? Não creio, pois vi Belchior, recentemente, e ele continua criativo, devotado, afiado e afinado! O que há, então? Parece que os “magos da mídia” o consideram ultrapassado... Pré-histórico até! Ora, se isso é verdade, então ele deveria estar na moda, a considerar pela gama inesgotável de “trogloditas pasteurizados” que maltratam nossos ouvidos e neutralizam nossos neurônios, e que nos é imposta todos os dias...

Mas dizem que Belchior faz 20 shows por mês, sempre lotados, cantando canções que fazem pensar! Será que pensar é ruim para os negócios? Só sei que, num universo que continua repleto de moças e rapazes, latino-americanos, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindos do Interior, Belchior não pode estar ausente, nem esquecido, nem mudo... Precisa cantar muito mais!

O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é escritor, engenheiro, professor universitário, articulista, poeta e autor do livro: “Sobre Almas e Pilhas”, Editora: Espaço do Autor - e-mail: algbr@ig.com.br