Brasília - Mais três deputados que participam diretamente da apuração do escândalo do “mensalão†reclamaram ontem que suas conversas estariam sendo monitoradas por “grampos†telefônicos: o presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PTB-SP), o relator da CPI dos Correios, Osmar Serraglio (PMDB-PR), e Eduardo Paes (PSDB-RJ).
Izar foi o mais incisivo, dizendo que contratou um técnico para fazer uma varredura nos seus telefones e de fato foi detectado um grampo ilegal em seu escritório de São Paulo e que ele desconhecia. O presidente do Conselho de Ética afirmou que notou “barulhos esquisitos†em seu telefone durante uma entrevista a uma rádio e contratou o técnico, que é autônomo, para analisar o caso. “Mandei fazer uma varredura nos meus telefones do escritório em São Paulo, e foi encontrado um grampoâ€, disse.
O caso, segundo ele, foi relatado à Polícia Federal e à segurança da Câmara, mas Izar disse que não sabe apontar quem seria o responsável pela escuta clandestina e não quis apontar suspeitos. “Será que não é para assustar?â€, disse.
Já o relator Serraglio afirmou que desconfia dos “grampos†porque tem problemas constantes com seus aparelhos. “Suspeito que estou ‘grampeado’ porque tenho uma dificuldade enorme para falar no celular, a ligação sempre cai ou, quando estou falando, sai o som. Agora o telefone fixo da minha casa também está com problemasâ€, disse Serraglio, que afirmou “não ter idéia†de quem poderia estar vigiando suas conversas.
Integrante da CPI dos Correios, Eduardo Paes disse estar “grampeado†desde o início dos trabalhos da comissão, há cinco meses. “Isso mostra a completa falta de respeito ao Estado democrático, é uma reprodução da polícia política e é a cara do governo Lula. O presidente não deve saber de nada, como já aconteceu outras vezesâ€, ironizou ele. Para o tucano, a Abin e a Polícia Federal são as responsáveis pelo grampo.
A onda de denúncias de supostos “grampos†ilegais surgiu nesta semana na esteira do acirramento dos ânimos no Congresso nos últimos dias. O estopim foi a declaração do líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), de que iria dar “uma surra†no presidente Luiz Inácio Lula da Silva caso acontecesse algo com um de seus filhos, que, segundo ele, estariam sendo vigiados em Manaus.
Ontem, Virgílio voltou a citar o nome de Wagner Caetano Alves de Oliveira, subsecretário de Estudos e Pesquisas Político-institucionais da Secretaria Geral da Presidência, chefiada pelo ministro Luiz Dulci. Oliveira, que negou tudo para o senador, tem gabinete no Planalto e foi apontado como suspeito para Virgílio pelo diretor da Força Sindical para Economia Informal, Carlos Lacerda.
Ontem, Virgílio acusou o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, de estar sendo “evasivo†e de “desleixo†na apuração de denúncias tão graves. Na versão do senador, os dois conversaram na terça-feira passada, o ministro ficou de dar algum retorno e não voltou a ligar.
O primeiro a causar alvoroço com as denúncias dos “grampos†foi o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) que acusou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) de rastrear suas conversas desde que assumiu a sub-relatoria da CPI dos Correios responsável por investigar fundos de pensão e ameaçou também “dar uma surra†nos responsáveis.
O pefelista disse ontem que enviará hoje um relatório para o presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B-SP), ratificando suas denúncias e elencando fatos que as comprovariam. Na sua opinião, o suposto “grampo†seria uma ação “extra-oficial†da Abin.
O general Jorge Félix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), ao qual a Abin é vinculada, enviou anteontem um ofício a Aldo Rebelo, pedindo que ACM Neto enviasse um relatório sobre o caso. Inicialmente, a assessoria do GSI havia dito que as denúncias do deputado “careciam de fundamentoâ€. O ofício de Félix, enviado com cópia para o deputado pefelista, admite a possibilidade de abertura de procedimento para apurar o caso após analisar o teor dos indícios relatados por ACM Neto.
O líder do PT na Câmara, Henrique Fontana (RS), disse não acreditar nas denúncias dos deputados e atribuiu o caso à elevação na temperatura da disputa política no Congresso nesta semana.
Há cerca de três meses, o presidente da CPI dos Correios, senador Delcídio Amaral, denunciou que um de seus telefones estaria “grampeado†e que uma pessoa estaria tirando fotos de sua família no Estado.
* Silvio Navarro, Fernanda Krakovics e Eduardo Scolese