09 de julho de 2026
Cultura

‘Desconhecido’, Jay Vaquer lança 3º CD

Diego Molina
| Tempo de leitura: 3 min

O cantor e compositor Jay Vaquer é nome quase único em seu território. Como ele, não há nenhum novo e representativo nome masculino, sozinho nos palcos, no pop rock nacional - talvez Nando Reis, que também optou pela jornada solitária. “Tem os caras da Trama, o pessoal da onda do Zeca Baleiro e do Lenine, mas me sinto sozinho nessa cena, sim. É muito doido, porque ao mesmo tempo é notória uma democratização do acesso à tecnologia, então hoje cada um tem seu estúdio no banheiro, mas os meios são os mesmos, são restritos e complicados. Acho maluco que não tenha coisas mais próximas, de artistas masculinos solo no pop rock, mas se você pegar o outro lado, tem a Pitty, nessa mesma onda pop rock, e mais ninguém”, analisa, em entrevista por telefone ao JC Cultura.

Vaquer - sim, esse é seu nome real (“Se fosse inventar um nome artístico, faria algo melhor”) - é filho do guitarrista americano de mesmo nome, parceiro de Raul Seixas e de Jane Duboc, e está lançando seu terceiro CD, “Você Não Me Conhece”. A música que dá nome ao trabalho não fala exatamente disso, mas a brincadeira, promovida pelos diretores artísticos da gravadora, dá dimensão a um fato real: de que o grande público ainda não tomou atenção ao músico, mesmo que ele tenha emplacado pelo menos três clipes no “Disk MTV” e no “Top 20 MTV” nos últimos anos. O último é a música de trabalho atual, “Cotidiano de um Casal Feliz”.

“Esse é meramente o nome de uma das músicas, que fala de um cara que está conversando com uma pessoa e ela simplesmente não o saca. Não se esconde nenhuma coisa profunda ou conceitual, mas é claro que quando Cláudio Rabello sugeriu que a música fosse o nome do CD, quis brincar com o fato do consumidor não conhecer o artista. Não é essa a abordagem na canção, mas eu acabei curtindo. Dentro do projeto gráfico, com a foto na piscina, a pessoa pode me ver por todos os ângulos mas não me conhece, e quando ela abre o CD, ela se vê refletida”, reforça Vaquer.

O músico não está sozinho somente em sua cena. Seu trabalho ganha milhas de distância, a cada música, de “novos nomes do pop rock” como CPM 22, Detonautas, Pitty, Charlie Brown Jr. ou outros filhotes do gênero, justamente por seu talento como compositor. Ele assina as 11 músicas de “Você Não Me Conhece” e, em todas, parece ter firmeza no que faz, fugindo de letras fáceis ou do blablablá de dores de cotovelo sertanejo-hardcore.

“Ele manda em tudo, em todos/ Curte seu poder/ E deixa a esposa em casa/ Pra brincar no treco de qualquer traveco/ Em troca de prazer/ Vai saber porquê”, canta em “Cotidiano de um Casal Feliz”, e vai ao outro extremo da acidez em “Tal do Amor (8 e 80)”: “Às vezes me sinto um castigo, uma praga, sua maldição/Às vezes me sinto um abrigo, uma graça, sua salvação”.

No contexto geral, as músicas têm mais unidade e mostram-se mais críticas do que as de “Vendo a Mim Mesmo”, último álbum de Vaquer. “Se (as músicas estão mais ácidas) é um reflexo do que estou vivendo, talvez seja isso. Não consigo me distanciar para me perceber. Apresentei diversas canções, em lotes. Fomos escolhendo assim e o resultado foi em função do que os produtores escolheram”, diz, e completa que não vê problema no que foi selecionado para o disco.

“A relação com Marcos Maynard e o Rabello é muito sincera, muito diferente do que costumam pintar por aí, que é uma relação desrespeitosa, de enfiar goela abaixo o repertório. Ninguém me corrompeu, ninguém me estuprou. É uma coisa de negociar, de sugerir e passar experiência, até para extrair do que é verdadeiro em mim o que é viável comercialmente”, explica.

Sincero e com repertório honesto, longe das bobagens e dores de amor adolescentes, Vaquer é um dos poucos nomes na música atual que valem a pena ser conferidos e acompanhados de perto.