08 de julho de 2026
Pesca & Lazer

Peixes adaptados para sobreviver

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 4 min

O planeta reserva vários tipos de ambientes nos quais os animais, inclusive os humanos, se adaptam para melhor viver e garantir a sobrevivência da espécie. Os peixes também não ficam fora do processo, sendo, na verdade, verdadeiros “mutantes”, seja em água doce ou salgada. A falta de oxigênio na água é um dos fatores que exigiu bastante capacidade evolutiva dos pescados, que aproveitaram outros órgãos, como estômago, intestino, pulmão, bexiga natatória, câmara branquial ou cavidade bucal.

Surpreendentemente, algumas espécies desenvolveram a capacidade de retirar o oxigênio do ar, em período de hipóxia (nível subnormal de oxigênio). Entre as situações que motivaram essas mudança estão os períodos de seca, quando o nível da água é bastante reduzido e, proporcionalmente, se diminui a quantidade de oxigênio na água; e também quando há grande quantidade de resíduos orgânicos, o que intensifica a procriação de microorganismos aeróbios, levando, muitas vezes à mortandade de peixes.

O professor Francisco Tadeu Rantin, pesquisador do Laboratório de Zoofisiologia e Bioquímica Comparativa (LZBC) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), desenvolve trabalhos nesta área e aponta vários exemplos de espécies adaptadas e suas habilidades em sobreviver em ambientes aquáticos com baixa quantidade de oxigênio.

Segundo ele, algumas espécies desenvolveram, ao longo da evolução, formas alternativas de conseguir oxigênio na superfície. Este é o caso da pirambóia, mas a verdadeira, cientificamente conhecida como Lepidosiren paradoxa. Encontrada na região norte do Pantanal e na Bacia Amazônica, divide-se com mais quatro espécies, três africanas e uma australiana, a posição de verdadeiro peixe pulmonado. “É uma espécie que faz respiração aérea exclusiva e possui um pulmão mesmo”, ensina o pesquisador Rantin.

Apesar da confusão de nomes, pois é comum o pescador chamar de pirambóia um peixe semelhante, encontrado inclusive no rio Tietê, o muçum (Synbranchus marmoratus) também fez as suas adaptações respiratórias. “Este possui respiração aérea acessória, pois respira pelas brânquias, mas também pela cavidade bucal quando há a necessidade de buscar oxigênio na superfície”, diz Rantin.

É interessante a capacidade das espécies em se adaptar às dificuldades apresentadas pelo meio em determinados períodos. Entre as espécies que possuem órgão de respiração aérea acessória, algumas desenvolveram a capacidade de retirar oxigênio por meio do intestino, como é o caso dos tamboatás, tamoatás ou cabojas (Callichthys callichthys e Hoplosternum littorale).

“São animais que durante o período de seca, quando a água baixa, como está ocorrendo agora na região amazônica, mesmo com pouca água e uma água pobre em oxigênio, eles conseguem suprir o oxigênio para o metabolismo a partir de um órgão de respiração aérea acessória”, confirma o professor da UFSCar.

Rantin explica que nesse período essas espécies conseguem migrar para outras regiões passando por cima da relva, onde está ocorrendo a seca, e seguir para o rio ou um lugar onde tenha água. “O jeju (Hoplerythrinus unitaeniatus) também faz isso. É um parente da traíra (que não faz respiração aérea acessória), da mesma família, e usa bexiga natatória como órgão de respiração aérea acessória.”

A falta de oxigênio na água durante o período de seca ou em locais onde há grande concentração de material orgânico – as bactérias aeróbicas consomem todo o oxigênio da água - causa grande mortandade de peixes e outros invertebrados que respiram exclusivamente o oxigênio aquático, os chamados respiradores aquáticos exclusivos. “A traíra e a maioria das espécies de peixe são respiradores aquáticos exclusivos”, ensina Rantin.

De acordo com informações do pesquisador da UFSCar, os peixes que são respiradores aéreos (obrigatórios ou não) fazem parte de um grupo especial e, se comparados com a quantidade de espécies no mundo, formam uma minoria muito reduzida, portanto são mais adaptados a ambientes tropicais do que aqueles que dependem exclusivamente da água.

Alguns peixes são respiradores aéreos obrigatórios, como o pirarucu (Arapaima gigas). “Se o peixe não puder subir para respirar, ele morre por asfixia. O poraquê, conhecido como peixe-elétrico, também é respirador aéreo obrigatório”, exemplifica Rantin. No caso do pirarucu, maior peixe de escamas em água doce do Brasil e um dos maiores do mundo, chegando a 200 quilos e quase três metros de comprimento, em seu processo evolutivo desenvolveu a bexiga natatória para funcionar como um reservatório de ar e órgão de respiração, semelhante a um pulmão.

O que o processo evolutivo não previa era a existência de um predador, proporcional às características especiais do pirarucu: o homem. Considerado o bacalhau brasileiro, sua carne é bastante apreciada e o fato de ser um respirador aéreo obrigatório torna-o uma presa fácil para os pescadores. Ao subir para respirar, o pirarucu é arpoado pelo pescador, que não enfrenta grandes problemas para a sua pesca. O único inconveniente é transportar o peixão em pequenas canoas.

Sua pesca foi tão intensa que a espécie entrou no grupo das ameaçadas de extinção, o que felizmente está sendo revertido com a introdução do manejo da pesca e da reprodução artificial em cativeiro, que hoje está bastante avançada. Apesar de ser uma espécie carnívora, o que dificulta seu tratamento em tanques para a comercialização, sua carne é bastante procurada, sendo também produto de exportação.